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Creatus est homo ad hunc finem,
ut Dominum Deum suum laudet,
revereatur, eique serviens tandem salvus fiat.

(O homem foi criado para este fim:
louvar, reverenciar, servir ao Senhor seu Deus,
e assim salvar a sua alma. Exercícios, Sto. Inácio, vol.I)

quinta-feira, 15 de Outubro de 2009

Porque não te calas, Saramago?


Saramago: porque dizes tantos disparates? Saramago chocou hoje aos Católicos de todo o mundo ao referir-se a Bento XVI como uma pessoa cínica. Palavras para quê, foi mais uma declaraçãoextremamente infeliz, especialmente pela forma como o faz: «Que Ratzinger tenha a coragem de invocar Deus para reforçar o seu neo-medievalismo universal, um Deus que jamais viu, com o qual nunca se sentou a tomar um café, demonstra apenas o absoluto cinismo intelectual da personagem». «Às insolências reaccionárias da Igreja Católica há que responder com a insolência da inteligência viva, no bom sentido, da palavra responsável. Não podemos permitir que a verdade seja ofendida todos os dias pelos presumíveis representantes de Deus na terra, a quem na realidade só interessa o poder». (Edição on-line do jornal Sol). Realmente, palavras para quê, Saramago…

domingo, 20 de Setembro de 2009

Haurietis Aquais - Sobre o Culto ao Sagrado Coração de Jesus

CARTA ENCÍCLICA DO PAPA PIO XII

HAURIETIS AQUAS

SOBRE O CULTO DO SAGRADO
CORAÇÃO DE JESUS

Aos veneráveis irmãos Patriarcas, Primazes,
Arcebispos, Bispos e demais Ordinários locais
em paz e comunhão com a Sé Apostólica

INTRODUÇÃO

ADMIRÁVEL DESENVOLVIMENTO
DO CULTO DO CORAÇÃO SACRATÍSSIMO
DE JESUS NOS TEMPOS MODERNOS

1. "Haurireis águas com gáudio das fontes do Salvador" (Is 12,3). Essas palavras, com que o profeta Isaías prefigurava os múltiplos e abundantes bens que os tempos cristãos haveriam de trazer, acodem-nos espontaneamente ao espírito ao completar-se a primeira centúria desde que o nosso predecessor de imperecível memória Pio IX, correspondendo aos desejos do orbe católico, ordenou que se celebrasse na Igreja universal a festa do sacratíssimo coração de Jesus.

2. Inumeráveis são as riquezas celestiais que nas almas dos fiéis infunde o culto tributado ao sagrado coração, purificando-os, enchendo-os de consolações sobrenaturais, e excitando-os a alcançar toda sorte de virtudes. Portanto, tendo presentes as palavras do apóstolo são Tiago. "Toda dádiva preciosa e todo dom perfeito vem do alto e desce do Pai das luzes" (Tg 1,17), neste culto, que cada vez mais se incende e se estende por toda parte, com toda razão, podemos considerar o inapreciável dom que o Verbo encarnado e salvador nosso, como único mediador da graça e da verdade entre o Pai celestial e o gênero humano, concedeu à sua mística esposa nestes últimos séculos, em que ela teve de suportar tantos trabalhos e dificuldades. Assim, pois, gozando deste inestimável dom, pode a Igreja manifestar mais amplamente o seu amor ao divino Fundador, e cumprir mais fielmente a exortação que o evangelista são João põe na boca do próprio Jesus Cristo: "No último dia da festa, que é o mais solene, Jesus pôs-se em pé, e em voz alta dizia: Se alguém tem sede, venha a mim, e beba quem crê em mim. Do seu seio, como diz a Escritura, manarão rios de água viva. Isto o disse pelo Espírito que haveriam de receber os que nele cressem" (Jo 7,37-39). Ora, aos que escutavam essas palavras de Jesus, pelas quais ele prometia que do seu seio haveria de manar uma fonte "de água viva", certamente não lhes era difícil relacioná-las com os vaticínios com que Isaías, Ezequiel e Zacarias profetizavam o reino do Messias, e com a simbólica pedra que, golpeada por Moisés, de maneira milagrosa haveria de jorrar água (cf. Is 12,3; Ez 47,1-12; Zc 13,1; Ex 17,1-7; Nm 20,7-13;1Cor 10,4; Ap 7,17; 22,1).

3. A caridade divina tem a sua primeira origem no Espírito Santo, que é o amor pessoal, assim do Pai como do Filho, no seio da Trindade augusta. Com sobradíssima razão, pois, o apóstolo das gentes, como que fazendo-se eco das palavras de Jesus Cristo, atribui a esse Espírito de amor a efusão da caridade nas almas dos crentes: "A caridade de Deus foi derramada nos nossos corações por meio do Espírito Santo, que nos foi dado" (Rm 5,5).

4. Este estreito vínculo que segundo a Sagrada Escritura, existe entre o Espírito Santo, que é amor por essência, e a caridade divina, que deve acender-se cada vez mais na alma dos fiéis, demonstra abundantemente a todos nós, veneráveis irmãos, a natureza íntima do culto que se deve tributar ao coração de Jesus Cristo. Com efeito, se lhe considerarmos a natureza particular, manifesto é que este culto é um ato de religião excelentíssimo, visto exigir de nós uma plena e inteira vontade de entrega e consagração ao amor do divino Redentor, do qual é sinal e símbolo vivo o seu coração traspassado. Consta igualmente, e em sentido ainda mais profundo, que este culto aprofunda a correspondência do nosso amor ao amor divino. Pois só em virtude da caridade se obtém que os homens se submetam mais perfeita e inteiramente ao domínio de Deus, já que o nosso amor de tal maneira se apega à divina vontade, que vem a fazer-se uma coisa só com ela, consoante aquelas palavras: "Quem está unido ao Senhor é com ele um mesmo espírito" (1Cor 6,17).

I
FUNDAMENTOS E PREFIGURAÇÕES

DO CULTO AO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS
NO ANTIGO TESTAMENTO

1) Incompreensão da verdadeira natureza
do culto ao coração sacratíssimo de Jesus
por parte de alguns cristãos

5. Conquanto a Igreja em tão grande estima tenha tido sempre e ainda tenha o culto do sacratíssimo coração de Jesus, a ponto de se empenhar em fomentá-lo e propagá-lo por toda parte entre o povo cristão, e conquanto se esforce diligentemente por defendê-lo contra o "naturalismo" e o "sentimentalismo", todavia é muito doloroso verificar que, no passado e em nossos dias, alguns cristãos não têm este nobilíssimo culto na honra e estima devidas, e às vezes não o têm nem mesmo aqueles que se dizem animados de zelo sincero pela religião católica e pela própria perfeição.

6. "Se conhecesses o dom de Deus" (Jo 4,10). Servimo-nos dessas palavras veneráveis irmãos, nós, que por disposição divina fomos constituídos guardas e dispensadores do tesouro da fé e da religião que o divino Redentor entregou à sua Igreja, para admoestar todos aqueles dos nossos filhos que, apesar de, vencendo a indiferença e os erros humanos, já haver o culto do sagrado coração de Jesus penetrado no seu corpo místico, ainda abrigam preconceitos para com ele, e chegam até a reputá-lo menos adaptado, para não dizer nocivo, às necessidades espirituais mais urgentes da Igreja e da humanidade na hora presente. Porque não falta quem, confundindo ou equiparando a índole primária deste culto com as diversas formas de devoção que a Igreja aprova e favorece, mas não prescreve, o tem como um acréscimo que cada um pode praticar à vontade, e alguns há também que consideram oneroso este culto, e mesmo de nenhuma ou pouca utilidade, especialmente para os militantes do reino de Deus, empenhados em consagrar o melhor das suas energias, dos seus recursos e do seu tempo à defesa da verdade católica, para ensiná-la e propagá-la, e para difundir a doutrina social católica, fomentando práticas religiosas e obras por eles julgadas mais necessárias nos nossos dias. Por último, há quem creia que este culto, longe de ser um poderoso meio para estabelecer e renovar os costumes cristãos na vida individual e familiar, é antes uma devoção sensível não enformada em altos pensamentos e afetos, e, portanto, mais própria para mulheres do que para pessoas cultas.

7. Outros, finalmente, ao considerarem que esta devoção pede penitência, expiação e outras virtudes, sobretudo as que se chamam "passivas", por não produzirem frutos externos; não a julgam a propósito para reacender a piedade, a qual deve tender cada vez mais à ação intensa, encaminhada ao triunfo da fé católica e à valente defesa dos costumes cristãos, os quais hoje, como todos sabem, se vêm facilmente infectados pelo indiferentismo, que não reconhece nenhum critério para distinguir o verdadeiro do falso no modo de pensar e de agir, e, assim, se vêem lamentavelmente alheados pelos princípios do materialismo ateu e do laicismo.

2) Estima e bênção dos sumos pontífices
ao culto do sagrado coração de Jesus

8. Quem não vê, veneráveis irmãos, quão alheias são essas opiniões do sentir dos nossos predecessores, que desta cátedra de verdade publicamente aprovaram o culto do sacratíssimo coração de Jesus? Quem ousará chamar inútil ou menos acomodada aos nossos tempos esta devoção que o nosso predecessor de imperecível memória Leão XIII chamou de "estimadíssima prática religiosa", e na qual viu um poderoso remédio para os próprios males que, nos nossos dias de maneira mais aguda e com mais extensão, afligem os indivíduos e a sociedade? "Esta devoção - dizia ele - que a todos recomendamos, a todos será de proveito". E acrescentava estes avisos e exortações que também se referem à devoção ao sagrado coração: "Daí a violência dos males que, há tempo, estão como que implantados entre nós, e que reclamam urgentemente busquemos a ajuda do único que tem poder para os afastar. E quem pode ser este senão Jesus Cristo, o unigênito de Deus? Pois nenhum outro nome foi dado aos homens sob o céu no qual devamos salvar-nos" (At 4,12). "Cumpre recorrer a ele, que é caminho, verdade e vida".(1)

9. Nem menos dignos de aprovação e adequado para fomentar a piedade cristã julgou-o o nosso imediato predecessor, de feliz memória, Pio XI, que, na sua encíclica "Miserentissimus Redemptor", escrevia: "Acaso não está contido nessa forma de devoção o compêndio de toda a religião, e mesmo a norma de vida mais perfeita, como quer que ele guie mais suavemente as almas para o profundo conhecimento de Cristo Senhor nosso, e com maior eficácia as mova a amá-lo mais apaixonadamente e a imitá-lo mais de perto?"(2) Nós, por nossa parte, com não menor agrado do que os nossos predecessores, aprovamos e aceitamos essa sublime verdade; e, quando fomos elevado ao sumo pontificado, ao contemplarmos o feliz e triunfal progresso do culto ao sagrado coração de Jesus entre o povo cristão, sentimos o nosso ânimo cheio de alegria e regozijamo-nos com os inúmeros frutos de salvação que ele havia produzido em toda a Igreja, sentimentos que tivemos a satisfação de exprimir logo na nossa primeira encíclica.(3) Através dos anos do nosso pontificado - cheios não só de calamidades e angústias, como também de inefáveis consolações -, esses frutos não diminuíram nem em número, nem em eficácia, nem em beleza, antes aumentaram. Com efeito, iniciativas múltiplas e muito acomodadas às necessidades dos nossos tempos surgiram para reacender este culto: referimo-nos às associações destinadas à cultura intelectual e à promoção da religião e da beneficência; às publicações de caráter histórico, ascético e místico encaminhadas a este mesmo fim; às piedosas práticas de reparação e, de modo especial, às manifestações de ardentíssima piedade que têm promovido o Apostolado da oração, a cujo zelo e atividade se deve o se haverem famílias, colégios, instituições, e mesmo algumas nações, consagrado ao sacratíssimo coração de Jesus; e não raras vezes, por ocasião dessas manifestações de culto, mediante cartas, discursos e mesmo radiomensagens temos expressado a nossa paternal complacência.(4)

10. Portanto, ao vermos que tamanha abundância de águas, quer dizer, de dons celestiais do supremo amor, que têm brotado do sagrado coração do nosso Redentor, se derramam sobre incontáveis filhos da Igreja católica por obra e inspiração do Espírito Santo, não podemos, veneráveis irmãos, deixar de exortar-vos com ânimo paterno a que, juntamente conosco, tributeis louvores e profundas ações de graças ao dispensador de todos os bens, repetindo estas palavras do apóstolo das gentes: "Aquele que é poderoso para fazer, acima de toda medida, com incomparável excesso, mais do que pedimos ou pensamos, segundo o poder que desenvolve em nós a sua energia, a ele glória na Igreja e em Cristo Jesus por todas as gerações, nos séculos dos séculos. Amém" (Ef 3,20-21). Mas, depois de tributarmos as devidas graças ao Deus eterno, queremos por meio desta encíclica exortar-vos, a vós e a todos os amadíssimos alhos da Igreja, a uma mais atenta consideração dos princípios doutrinais contidos na Bíblia, nos santos padres, e nos teólogos; princípios nos quais, como em sólidos fundamentos, se apóia o culto do sacratíssimo coração de Jesus. Porque nós estamos plenamente persuadidos de que só quando à luz da divina revelação houvermos penetrado a fundo a natureza e a essência íntima deste culto, é que poderemos apreciar devidamente a sua incomparável excelência e a sua inexaurível fecundidade em toda sorte de graças celestiais, e destarte, meditando e contemplando piedosamente os inúmeros bens que ela produz, poderemos celebrar dignamente o primeiro centenário da festa do sacratíssimo coração de Jesus na Igreja universal.

11. Com o fim, pois, de oferecer à mente dos féis o alimento de salutares reflexões, com as quais possam eles mais facilmente compreender a natureza deste culto, tirando dele frutos mais abundantes, deter-nos-erros antes de tudo nas páginas do Antigo e do Novo Testamento que contêm a revelação e descrição da caridade infinita de Deus para com o gênero humano, caridade cuja sublime grandeza jamais poderemos esquadrinhar suficientemente; depois aduziremos o comentário que sobre ela nos deixaram os padres e doutores da Igreja; e, finalmente, procuraremos esclarecer a íntima conexão que existe entre a forma de devoção que se deve tributar ao coração do divino Redentor e o culto que os homens estão obrigados a render ao amor, que ele e as outras pessoas da Santíssima Trindade têm a todo gênero humano. Pois achamos que, uma vez considerados à luz da Sagrada Escritura e da tradição os elementos constitutivos desta nobilíssima devoção, aos cristãos será mais fácil chegarem-se "com gáudio às águas das fontes do Salvador" (Is 12,3); quer dizer, poderão eles apreciar melhor a singular importância que o culto ao coração sacratíssimo de Jesus adquiriu na liturgia da Igreja, na sua vida interna e externa, e também nas suas obras; e assim cada um poderá obter frutos espirituais que assinalarão uma salutar renovação nos seus costumes, segundo os desejos dos pastores do rebanho de Cristo.

3) O amor de Deus, motivo dominante do culto
ao santíssimo coração de Jesus, no Antigo Testamento

12. Para melhor poder compreender a força que com relação a esta devoção encerram alguns textos do Antigo e do Novo Testamento, é preciso entender bem o motivo pelo qual a Igreja tributa ao coração do divino Redentor o culto de latria. Duplo, veneráveis irmãos, como bem sabeis, é tal motivo: o primeiro, que é comum também aos demais membros adoráveis do corpo de Jesus Cristo, funda-se no fato de, sendo o seu coração parte nobilíssima da natureza humana, estar unido hipostaticamente à pessoa do Verbo de Deus, e, portanto, dever-se-lhe tributar o mesmo culto de adoração com que a Igreja honra a pessoa do próprio Filho de Deus encarnado. Trata-se, pois, de uma verdade de fé católica, solenemente definida no concílio ecumênico de Éfeso e no II de Constantinopla.(5) O outro motivo concerne de maneira especial ao coração do divino Redentor, e, pela mesma razão, confere-lhe um título inteiramente próprio para receber o culto de latria. Provém ele de que, mais do que qualquer outro membro do seu corpo, o seu coração é o índice natural ou o símbolo da sua imensa caridade para com o gênero humano. Como observava o nosso predecessor Leão XIII, de imortal memória, "é ínsita no sagrado coração a qualidade de ser símbolo e imagem expressiva da infinita caridade de Jesus Cristo que nos incita a retribuir-lhe o amor por amor".(6)

13. Coisa indubitável é que nos livros sagrados nunca se faz menção certa de um culto de especial veneração e amor tributado ao coração físico do Verbo encarnado pela sua prerrogativa de símbolo da sua inflamadíssima caridade. Mas este fato, que cumpre reconhecer abertamente, não nos deve admirar, nem de modo algum fazer-nos duvidar de que a caridade divina para conosco - razão principal deste culto - é exaltada tanto pelo Antigo como pelo Novo Testamento com imagens sumamente comovedoras. E, por se encontrarem nos livros santos que prediziam a vinda do Filho de Deus feito homem, podem essas imagens considerar-se como um presságio daquilo que havia de ser o símbolo e índice mais nobre do amor divino, a saber: o coração sacratíssimo e adorável do Redentor divino.

14. Pelo que se refere ao nosso propósito, não julgamos necessário aduzir muitos textos do Antigo Testamento nos quais estão contidas as primeiras verdades reveladas por Deus, mas cremos bastará recordar o pacto estabelecido entre Deus e o povo eleito, pacto sancionado com vítimas pacíficas - e cujas leis fundamentais, esculpidas em duas tábuas, Moisés promulgou (cf. Ex 34, 27-28) e os profetas interpretaram -, esse pacto não se baseava somente nos vínculos do supremo domínio de Deus e na devida obediência da parte do homem, mas consolidava-se e vivificava-se com os mais nobres motivos do amor. Porque também para o povo de Israel a razão suprema de obedecer a Deus, devia ser não tanto o temor das divinas vinganças suscitado nos ânimos pelos trovões e relâmpagos procedentes do ardente cume do Sinai, mas, antes, o amor devido a Deus: "Escuta, Israel: O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. Amarás, pois, o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças. E estas palavras que hoje te ordeno estarão sobre o teu coração" (Dt 6,4-6).

15. Não nos deve, pois, causar estranheza que Moisés e os profetas, aos quais o Doutor angélico chama com razão os "maiorais" do povo eleito,(7) compreendendo bem que o fundamento de toda a lei se baseava neste mandamento do amor, descrevessem as relações todas existentes entre Deus e a sua nação, recorrendo a semelhanças tiradas do amor recíproco entre pai e filhos, ou do amor dos esposos, em vez de representá-ias com imagens severas inspiradas no supremo domínio de Deus ou na nossa devida servidão cheia de temor. Assim, por exemplo, no seu celebérrimo cântico pela libertação do seu povo da servidão do Egito, ao querer exprimir como essa libertação era devida à intervenção onipotente de Deus, o próprio Moisés recorre a estas comovedoras expressões e imagens: "Assim como a águia provoca seus filhotes a alçarem o vôo e acima deles revoluteia, assim também (Deus) estendeu as suas asas e acolheu (Israel) e carregou-o nos seus ombros" (Dt 32,11). Talvez, porém, entre os profetas, nenhum exprima e descubra melhor, tão clara e ardentemente, quanto Oséias, o amor constante de Deus para com seu povo. Com efeito, nos escritos deste profeta, que entre os profetas menores sobressai pela profundeza de conceitos e pela concisão da linguagem, Deus é descrito amando o seu povo escolhido com um amor justo e cheio de santa solicitude, qual é o amor de um pai cheio de misericórdia e de amor, ou de um esposo ferido na sua honra. É um amor que, longe de decair e de cessar à vista de monstruosas infidelidades e pérfidas traições, castiga-os, sim, como eles merecem, mas não para os repudiar e os abandonar a si mesmos, mas só com o fim de limpar, de purificar a esposa afastada e infiel e os filhos ingratos, para tornar a uni-los novamente consigo uma vez renovados e confirmados os vínculos de amor: "Quando Israel era criança amei-o; e do Egito chamei meu filho... Ensinei Efraim a andar, tomei-o nos meus braços, mas eles não reconheceram que eu cuidava deles. Com vínculos humanos atraí-los-ei, com laços de amor... Sanar-lhes-ei as rebeldias, amá-los-ei generosamente, pois minha ira não se afastou deles. Serei como o orvalho para Israel, ele florescerá como o lírio e lançará suas raízes qual o Líbano" (Os 11,1.3-4;14,5-6).

16. Expressões semelhantes tem o profeta Isaías quando apresenta o próprio Deus e o povo escolhido como que dialogando entre si com estas palavras: "Mas Sião disse: O Senhor abandonou-me e esqueceu-se de mim. Pode, acaso, uma mulher esquecer o seu pequenino de sorte que não se apiede do filho de suas entranhas? Ainda que esta se esquecesse, eu não me esquecerei de ti" (Is 49,14-15). Nem menos comovedoras são as palavras com que, servindo-se do simbolismo do amor conjugal, o autor do Cântico dos cânticos descreve com vivas cores os laços de amor mútuo que unem entre si, Deus e a nação predileta: "Como lírio entre os espinhos, assim é minha amada entre as donzelas... Eu sou de meu amado e meu amado é meu: o que se apascenta entre os lírios... Põe-me como selo sobre teu coração, como selo sobre teu braço, pois forte como a morte é o amor, duros como o inferno os ciúmes: seus ardores são ardores de fogo e de chamas" (Ct 2,2; 6,2; 8,6).

17. Com todo esse amor, terníssimo, indulgente e longânime mesmo quando se indigna pelas repetidas infidelidades do povo de Israel, Deus nunca chega a repudiá-lo definitivamente; mostra-se, sim, veemente e sublime; mas, contudo, em substância isso não passa do prelúdio daquela inflamadíssima caridade que o Redentor prometido havia de mostrar a todos com o seu amantíssimo coração, e que ia ser o modelo do nosso amor e a pedra angular da nova aliança. Porque, em verdade, só aquele que é o Unigênita do Pai e o Verbo feito carne "cheio de graça e de verdade" (Jo 1,14), tendo descido até os homens oprimidos de inúmeros pecados e misérias, podia fazer brotar da sua natureza humana, unida hipostaticamente à sua pessoa divina, "um manancial de água viva" que regasse copiosamente a terra árida da humanidade, transformando-a em florido e fértil jardim. E essa obra admirável que o amor misericordioso e eterno de Deus devia realizar, de certo modo já parece prenunciá-la o profeta Jeremias com estas palavras: "Amei-te com amor eterno; por isso atrai-te a mim cheio de misericórdia... Eis vêm dias, afirma o Senhor, em que pactuarei com a casa de Israel e com a casa de Judá uma aliança nova: este será o pacto que eu concertarei com a casa de Israel depois daqueles dias, declara o Senhor: Porei minha lei no interior dele e escrevê-la-ei no seu coração, e serei o seu Deus e eles serão o meu povo...; porque perdoarei a sua culpa e não mais me lembrarei dos seus pecados" (Jr 31,3.31. 33-4).

II
LEGITIMIDADE DO CULTO

AO SANTÍSSIMO CORAÇÃO DE JESUS
SEGUNDO A DOUTRINA

DO NOVO TESTAMENTO E DATRADIÇÃO

1) O amor de Deus no mistério da encarnação redentora segundo o Evangelho

18. Mas somente pelo Evangelho chegamos a conhecer com perfeita clareza que a nova aliança estipulada entre Deus e a humanidade - aliança da qual a pactuada por Moisés entre o povo e Deus foi somente uma prefiguração simbólica, e o vaticínio de Jeremias mera predição - é aquela que o Verbo encarnado estabeleceu e levou à prática merecendo-nos a graça divina. Esta aliança é incomparavelmente mais nobre e mais sólida, porque, a diferença da precedente, não foi sancionada com sangue de cabritos e novilhos, mas com o sangue sacrossanto daquele que esses animais pacíficos e privados de razão, prefiguravam: "o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo" (cf. Jo 1,29; Hb 9,18-28;10,1-17). Porque a aliança cristã, ainda mais do que a antiga, manifesta-se claramente como um pacto, não inspirado em sentimentos de servidão, não fundado no temor, mas apoiado na amizade que deve reinar nas relações entre pai e filhos, sendo ela alimentada e consolidada por uma mais generosa distribuição da graça divina e da verdade, conforme a sentença do evangelho de João: "Da sua plenitude todos nós participamos, e recebemos uma graça por outra graça. Porque a lei foi dada por Moisés, mas a graça foi trazida por Jesus Cristo" (Jo 1,16-17).

19. Introduzidos, por essas palavras do "discípulo amado que durante a ceia reclinara a cabeça sobre o peito de Jesus" (Jo 21, 20), no próprio mistério da infinita caridade do Verbo encarnado, é coisa digna, justa, reta e salutar nos detenhamos um pouco, veneráveis irmãos, na contemplação de tão suave mistério, a fim de, iluminados pela luz que sobre ele projetam as páginas do Evangelho, podermos também nós experimentar o feliz cumprimento do voto que o Apóstolo formulava escrevendo aos fiéis de Éfeso: "Habite Cristo, pela fé, nos vossos corações, vós que estais arraigados e cimentados em caridade, para que possais compreender com todos os santos qual é a largura e comprimento, a altura e profundidade deste mistério, e conhecer também o amor de Cristo a nós, o qual sobrepuja todo conhecimento, para que sejais plenamente cumulados de todos os dons de Deus" (Ef 3,17-19).

20. Com efeito, o mistério da divina redenção é, antes de tudo e pela sua própria natureza, um mistério de amor: isto é, um mistério de amor justo da parte de Cristo para com seu Pai celeste, a quem o sacrifício da cruz, oferecido com coração amante e obediente, apresenta uma satisfação superabundante e infinita pelos pecados do gênero humano: Cristo, sofrendo por caridade e obediência, ofereceu à Deus alguma coisa de valor maior do que o exigia a compensação por todas as ofensas feitas a Deus pelo gênero humano.(8) Além disso, o mistério da redenção é um mistério de amor misericordioso da augusta Trindade e do divino Redentor para com a humanidade inteira, visto que, sendo esta totalmente incapaz de oferecer a Deus uma satisfação condigna pelos seus próprios delitos,(9) mediante a imperscrutável riqueza de méritos que nos ganhou com a efusão do seu precioso sangue, Cristo pode restabelecer e aperfeiçoar aquele pacto de amizade entre Deus e os homens violado pela primeira vez no paraíso terrestre por culpa de Adão e depois, inúmeras vezes, pela infidelidade do povo escolhido. Portanto, havendo na sua qualidade de nosso legítimo e perfeito mediador, e sob o estímulo de uma caridade energética para conosco, conciliando as obrigações e compromissos do gênero humano com os direitos de Deus, o divino Redentor foi, sem dúvida, o autor daquela maravilhosa reconciliação entre a divina justiça e a divina misericórdia, a qual justamente constitui a absoluta transcendência do mistério da nossa salvação, tão sabiamente expresso pelo doutor angélico com estas palavras: "Convém observar que a libertação do homem, mediante a paixão de Cristo, foi conveniente tanto para a justiça como para a misericórdia do mesmo Cristo. Antes de tudo para a justiça, porque com a sua paixão Cristo satisfez pela culpa do gênero humano, e, por conseguinte, pela justiça de Cristo foi o homem libertado. E, em segundo lugar, para a misericórdia, porque, não sendo possível ao homem satisfazer pelo pecado, que manchava toda a natureza humana, deu-lhe Deus um reparador na pessoa de seu Filho. Ora, isto foi, da parte de Deus, um gesto de mais generosa misericórdia do que se ele houvesse perdoado os pecados sem exigir qualquer satisfação. Por isso está escrito: 'Deus, que é rico em misericórdia, movido pelo excessivo amor com que nos amou quando estávamos mortos pelos pecados, deu-nos vida juntamente em Cristo'" (Ef 2, 4).(10)

2) Tríplice amor do Redentor para com o gênero humano: divino, espiritual e sensível

21. Mas, a fim de, na medida que isso é dado aos homens mortais, poderdes "compreender com todos os santos qual é a largura e comprimento, a altura e profundidade" (Ef 3,18) da insondável caridade do Verbo encarnado para com seu Pai celestial e para com os homens manchados de tantas culpas, convém ter bem presente que o amor não foi unicamente espiritual, como convém a Deus, visto que "Deus é espírito" (Jo 4,24). Indubitavelmente, de índole puramente espiritual foi o amor nutrido por Deus para com nossos progenitores e para com o povo hebreu; por isso, as expressões de amor humano, quer conjugal, quer paterno, que se lêem nos Salmos, nos escritos dos profetas e no Cântico dos cânticos, são indícios e símbolos de um amor verdadeiros mas totalmente espiritual, com que Deus amava o gênero humano; ao contrário, o amor que se exala do Evangelho, das cartas dos apóstolos e das páginas do Apocalipse, onde se descreve o amor do coração de Jesus, não compreende somente a caridade divina, mas se estende também aos sentimentos do afeto humano. Para todo aquele que faz profissão de fé católica, essa verdade é indiscutível. Com efeito, o Verbo de Deus não tomou um corpo ilusório e fictício; como já no primeiro século da era cristã ousaram afirmar alguns hereges, que atraíram a severa condenação do apóstolo João: "porque muitos sedutores que não confessam a Jesus Cristo encarnado espalham-se pelo mundo. Este é o Sedutor, o Anticristo" (2Jo 7); porém ele, o Verbo de Deus, uniu à sua divina pessoa uma natureza humana indivídua, íntegra e perfeita, concebida no seio imaculado de Maria Virgem por obra do Espírito Santo (cf. Lc 1,35). Nada, pois, faltou à natureza humana assumida pelo Verbo de Deus; em verdade, ele a possui sem nenhuma diminuição, sem nenhuma alteração, tanto nos elementos constitutivos espirituais quanto nos corporais, a saber: dotada de inteligência de vontade e demais faculdades cognoscitivas internas e externas; dotada igualmente das potências afetivas, sensitivas e das suas correspondentes paixões. É isso o que ensina a Igreja católica, por estar sancionado e solenemente confirmado pelos romanos pontífices e pelos concílios ecumênicos: "Inteiro nas suas propriedades, inteiro nas nossas";(11) "perfeito na divindade e perfeito ele próprio na humanidade";(12) "todo Deus (feito) homem e todo o homem (subsistente em) Deus".(13)

22. Não havendo, pois, dúvida alguma de que Jesus possuía um verdadeiro corpo humano, dotado de todos os sentimentos que lhe são próprios, entre os quais campeia o amor, do mesmo modo é muito verdade que ele foi provido de um coração físico em tudo semelhante ao nosso, não sendo possível que a vida humana, privada deste excelentíssimo membro do corpo, tenha a sua natural atividade afetiva. Por conseguinte, o coração de Cristo, unido hipostaticamente à pessoa divina do Verbo, sem dúvida deve ter palpitado de amor e de qualquer outro afeto sensível; contudo, esses sentimentos eram tão conformes e estavam tão em harmonia com a vontade humana, transbordante de caridade divina, e com o próprio amor infinito que o Filho tem com o Pai e com o Espírito Santo, que jamais se interpôs a mínima oposição e discórdia entre esses três amores.(14)

23. Todavia, o fato de haver o Verbo de Deus assumido a verdadeira e perfeita natureza humana, e de lhe ter sido plasmado e como que modelado um coração de carne que, não menos do que o nosso, fosse capaz de sofrer e de ser ferido, esse fato, digamos, se não é visto e considerado à luz que emana não só da união hipostática e substancial, mas também da verdade da redenção humana, que é, por assim dizer, o complemento daquela, a alguns poderia parecer "escândalo" e "loucura", como de fato aos judeus e gentios pareceu "Cristo crucificado" (cf. 1Cor 1,23). Ora, os símbolos da fé, perfeitamente concordes com as divinas Escrituras, asseguram-nos que o Filho unigênito de Deus assumiu a natureza passível e mortal com a mira posta principalmente no sacrifício cruento da cruz, que ele desejava oferecer com o fim de realizar a obra da salvação do homem. Além disso, esta é a doutrina exposta pelo Apóstolo das gentes: "Porque aquele que santifica, e os santificados, todos tiram de um a sua origem. Razão pela qual ele não tem escrúpulos de chamá-los irmãos, dizendo: 'Anunciarei teu nome a meus irmãos...' Outrossim: `Eis-nos aqui, eu e meus filhos que Deus me deu'. E por isso que os filhos têm comuns a carne e o sangue, ele também participou das mesmas coisas... Pelo que, em tudo teve de se assemelhar a seus irmãos, afim de ser um pontífice misericordioso e fiel para com Deus, em ordem a expiar os pecados do povo. Já que, em razão de haver ele mesmo padecido e de ter sido tentado, pode também dar a mão aos que são tentados" (Hb 2,11-14; 17-18).

3) O testemunho dos santos Padres em favor dos afetos sensíveis do Verbo encarnado

24. Os santos Padres, testemunhas verazes da doutrina revelada, advertiram muito oportunamente o que já Paulo apóstolo claramente significara, a saber: que o amor divino é como o princípio e a culminância da obra da encarnação e redenção. Lê-se freqüentemente nos escritos deles que Jesus Cristo tomou em si a natureza humana perfeita, o nosso corpo frágil e caduco, para nos proporcionar a salvação eterna e manifestar, patentear em forma sensível o seu infinito amor a nós.

25. Fazendo-se eco da voz do Apóstolo das gentes, são Justino escreve o seguinte: "Amamos e adoramos o Verbo nascido de Deus inefável e que não tem princípio; já que ele se fez homem por nós para que, tornado participante das nossas doenças, proporcionasse-nos o seu remédio",(15) E s. Basílio, o primeiro dos três Padres da Capadócia, afirma que os afetos sensíveis de Cristo foram verdadeiros e ao mesmo tempo santos: "É manifesto que o Senhor possuiu os afetos naturais em confirmação da sua verdadeira, e não fantástica, encarnação; manifesto é também que ele repeliu como indignos da divindade os afetos viciosos, que mancham a pureza-da nossa vida".(16) Igualmente, s. João Crisóstomo, luminar da Igreja antioquena, confessa que as emoções sensíveis de que o Senhor deu mostra provam irrecusavelmente haver ele possuído integralmente a nossa natureza humana: "A não haver ele possuído a nossa natureza, não teria experimentado, uma e mais vezes, a tristeza".(17) Entre os Padres latinos, merecem lembrança os que hoje a Igreja venera como doutores máximos. Santo Ambrósio afirma que a união hipostática é a origem natural dos afetos e sentimentos que o Verbo de Deus encarnado experimentou: "Portanto, já que ele tomou a alma, tomou as paixões da alma; pois Deus, como Deus que é, não podia perturbar-se nem morrer".(18) Nessas mesmas reações apóia s. Jerônimo o principal argumento para provar que Cristo assumiu realmente a natureza humana: nosso Senhor entristeceu-se realmente, para manifestar a sua humana natureza.(19) Particularmente santo Agostinho faz notar a íntima união existente entre os sentimentos do Verbo encarnado e a finalidade da redenção humana: "O Senhor revestiu-se dos afetos da fragilidade humana, do mesmo modo que aceitou a fragilidade da nossa carne e a morte desta, não por necessária coação, mas sim pelo estímulo da sua misericórdia, para assimilar a si o seu corpo; que é a Igreja, da qual ele se dignou ser a cabeça, ou seja, assimilar seus membros em seus santos e fiéis; de modo que, se por efeito das tentações humanas algum deles se entristecesse e sofresse, nem por isso pensasse estar privado do influxo da sua graça; e, assim como um coro fica alerta à voz que lhe dá o tom, assim também o seu corpo soubesse da sua cabeça que por si mesmos, tais movimentos não são pecado, senão somente indício da humana fragilidade",(20) Com maior concisão e não menor força estas passagens de s. João Damasceno atestam a doutrina da Igreja: "O Deus todo tomou todo o homem, e o todo se uniu ao todo para proporcionar a salvação do homem todo. De outra maneira não teria ele podido sanar aquilo que não assumiu".(21) "Tomou, pois, tudo para santificar tudo".(22)

4) O simbolismo natural do coração de Jesus Cristo
afirmado veladamente na Sagrada Escritura
e nos santos Padres

26. Bem verdade é que nem os autores sagrados, nem os Padres da Igreja que citamos, e outros semelhantes, embora provem abundantemente que Jesus Cristo esteve sujeito aos sentimentos e afetos humanos, e que, por isso precisamente, tomou a natureza humana a fim de nos proporcionar a eterna salvação, contudo não atribuem concretamente ditos afetos ao seu coração fisicamente considerado, apontando nele o símbolo do seu amor infinito. Embora os evangelistas e os outros autores sacros não nos descrevam abertamente o coração do nosso Redentor não menos vivo e sensível do que o nosso, e as palpitações e estremecimentos devidos às diversas emoções e afetos da sua alma e à ardentíssima caridade da sua dupla vontade, todavia freqüentemente põem em relevo o seu divino amor e as emoções sensíveis com ele relacionadas: o desejo, a alegria, a tristeza, o temor e a ira, consoante as expressões do seu olhar, das suas palavras e dos seus gestos. E, principalmente, o rosto adorável de nosso Salvador foi, sem dúvida, o índice e como que o espelho fidelíssimo dos afetos que, comovendo-lhe de vários modos a alma, à semelhança das ondas que se entrechocam, chegavam ao seu coração santíssimo e lhe excitavam as pulsações. Na verdade, a propósito de Jesus Cristo vale também o que o Doutor angélico, ensinado pela experiência, observa em matéria de psicologia humana e dos fenômenos dela derivados: "A turbação que a ira produz repercute nos membros externos, e principalmente naqueles em que mais se reflete a influência do coração, como são os olhos, o semblante, a língua". (23)

27. Com muita razão, pois, o coração do Verbo encarnado é considerado índice e símbolo do tríplice amor com que o divino Redentor ama continuamente o Eterno Pai e todos os homens. Ele é, antes de tudo, símbolo do divino amor, que nele é comum com o Pai e com o Espírito Santo, e que só nele, como Verbo encarnado, se manifesta por meio do caduco e frágil instrumento humano, "pois nele habita corporalmente a plenitude da divindade" (Cl 2,9). Ademais, o coração de Cristo é símbolo de enérgica caridade, que, infundida em sua alma, constitui o precioso dote da sua vontade humana, e cujos atos são dirigidos e iluminados por uma dupla e perfeita ciência, a beatífica e a infusa. (24)Finalmente, e isto de modo mais natural e direto, o coração de Jesus é símbolo do seu amor sensível, já que o corpo de Jesus Cristo, plasmado no seio imaculado da Virgem Maria por obra do Espírito Santo, supera em perfeição, e portanto em capacidade perceptiva, qualquer outro organismo humano.(25)

28. Instruídos pelos sagrados textos e pelos símbolos da fé acerca da perfeita consonância e harmonia reinante na alma santíssima de Jesus Cristo, e a respeito do fato de haver ele dirigido com finalidade redentora todas as manifestações do seu tríplice amor, com toda segurança podemos contemplar e venerar no coração do Redentor divino a imagem eloqüente da sua caridade e o testemunho da nossa redenção, e como que uma mística escada para subir ao amplexo "de Deus nosso Salvador" (Tt 3,4). Por isso, nas palavras, nos atos, nos ensinamentos, nos milagres, e especialmente nas obras mais esplendorosas do seu amor para conosco, como a instituição da divina eucaristia, a sua dolorosa paixão e morte, a benigna doação de sua santíssima Mãe, a fundação da Igreja para proveito nosso, e, finalmente, a missão do Espírito Santo sobre os apóstolos e sobre nós, em todas essas obras, repetimos, devemos admirar outros tantos testemunhos do seu tríplice amor, e meditar as pulsações do seu coração, com as quais ele quis medir os instantes da sua peregrinação terrena até o momento supremo em que, como atestam os evangelistas, "clamando com grande voz, disse: Tudo está consumado. E, inclinando a cabeça, entregou o espírito" (Mt 27,50; Jo 19,30). Então o seu coração parou e deixou de bater, e o seu amor sensível permaneceu como que suspenso, até que, triunfando da morte, ele se levantou do sepulcro. Depois que seu corpo conseguiu o estado da glória sempiterna e se uniu novamente à alma do divino Redentor, vitorioso da morte, o seu coração sacratíssimo nunca deixou nem deixará de palpitar com imperturbável e plácida pulsação, nem tampouco cessará de demonstrar o tríplice amor com que o Filho de Deus se une a seu Pai eterno e à humanidade inteira, de quem é, com pleno direito, a cabeça mística.

III
PARTICIPAÇÃO ATIVA E PROFUNDA
QUE TEVE O SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS

NA MISSÃO SALVADORA DO REDENTOR

1) O sagrado coração de Jesus, símbolo de amor perfeito: sensíuel, espiritual, humano e divino, durante a vida terrena do Salvador

29. Agora, veneráveis irmãos, para que destas piedosas considerações possamos tirar abundantes e salutares frutos, bom é meditarmos e contemplarmos brevemente os múltiplos afetos humanos e divinos de nosso Salvador Jesus Cristo, dos quais; durante o curso da sua vida mortal, o seu coração participou e continua agora participando e não deixará de participar por toda a eternidade. Nas páginas do Evangelho é onde principalmente encontraremos a luz pela qual iluminados e fortalecidos poderemos penetrar no segredo deste divino coração, e admirar com o Apóstolo das gentes "as abundantes riquezas da graça (de Deus) na bondade usada conosco por amor de Jesus Cristo" (Ef 2,7).

30. O adorável coração de Jesus Cristo pulsa de amor ao mesmo tempo humano e divino desde que a virgem Maria pronunciou aquela palavra magnânima: "Fiat", e o Verbo de Deus, como nota o Apóstolo, "ao entrar no mundo disse: Não quiseste sacrifício nem oferenda, mas me apropriaste um corpo; holocaustos pelo pecado não te agradaram. Então disse: Eis que venho: segundo está escrito de mim no princípio do livro, para cumprir, ó Deus, a tua vontade... Por esta vontade, pois, somos santificados pela oblação do corpo de Cristo feita uma só vez" (Hb 10,5-7.10). De maneira semelhante palpitava de amor o seu coração, em perfeita harmonia com os afetos da sua vontade humana e com o seu amor divino, quando, na casa de Nazaré, ele mantinha aqueles celestiais colóquios com sua dulcíssima Mãe e com seu pai putativo, s. José, a quem obedecia e com quem colaborava no fatigante ofício de carpinteiro. Esse mesmo tríplice amor movia o seu coração nas suas contínuas excursões apostólicas, quando realizava aqueles inúmeros milagres, quando ressuscitava os mortos ou restituía a saúde a toda sorte de enfermos, quando sofria aqueles trabalhos, suportava o suor, a fome e a sede; nas vigílias noturnas passadas em oração a seu Pai amado; e, finalmente, nos discursos que pronunciava e nas parábolas que propunha, especialmente naquelas que tratam da misericórdia, como a da dracma perdida, a da ovelha desgarrada e a do filho pródigo. Nessas palavras e nessas obras, como diz Gregório Magno, manifesta-se o próprio coração de Deus. "Conhece o coração de Deus nas palavras de Deus, para que com mais ardor suspires pelas coisas eternas".(26)

31. De amor ainda maior pulsava o coração de Jesus Cristo quando da sua boca saíam palavras que inspiravam amor ardente. Assim, para dar algum exemplo, quando, ao ver as turbas cansadas e famintas, ele disse: "Tenho compaixão desta multidão" (Mc 8,2), e quando, ao avistar Jerusalém, a sua cidade predileta, destinada a uma ruína fatal por causa da sua obstinação no pecado, exclamou: "Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados: quantas vezes eu quis recolher teus filhos, como a galinha recolhe debaixo das asas os seus pintinhos, e não o quiseste!" (Mt 23,37). O seu coração também palpitou de amor para com seu Pai, e de santa indignação, quando ele viu o comércio sacrílego que se fazia no templo, e verberou os violadores com estas palavras: "Escrito está: minha casa será chamada casa de oração; mas vós fizestes dela uma espelunca de ladrões" (Mt 21,13).

32. Pois o seu coração bateu particularmente de amor e de pavor quando ele viu iminente a hora dos seus cruéis padecimentos, e quando experimentando uma repugnância natural às dores e à morte, exclamou: "Meu Pai, se é possível, passe de mim este cálice" (Mt 26,39); palpitou com amor invicto e com suma amargura quando, ao receber o beijo do traidor, dirigiu-lhe aquelas palavras que parecem o convite último do seu coração misericordioso ao amigo que com ânimo ímpio, infiel e obstinado, devia entregá-lo aos seus algozes: "Amigo, a que vieste? Com um beijo entregas o Filho do homem?" (Mt 26,50; Lc 22,48); palpitou de compaixão e de amor íntimo quando disse às piedosas mulheres que choravam a sua imerecida condenação ao suplício da cruz: "Filhas de Jerusalém, não choreis por mim; chorai por vós mesmas e por vossos filhos..., pois, se assim tratam a árvore verde, que se não fará à seca?" (Lc 23,28.31).

33. Finalmente, quando o divino Redentor pendia da cruz, sentiu o seu coração arder dos mais vários e veementes afetos, isto é, de afetos de amor ardente, de consternação, de misericórdia, de desejo inflamado, de paz serena; afetos claramente manifestados naquelas palavras: "Pai, perdoa-lhes; porque eles não sabem o que fazem" (Lc 23,34); "Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?" (Mt 27,46); "Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso" (Lc 23,43); "Tenho sede" (Jo 19,28); "Pai, nas tuas mãos entrego meu espírito" (Lc 23,46).

2) A eucaristia, a santíssima virgem
e o sacerdócio são dons do coração amado de Jesus

34. Quem poderá descrever dignamente as pulsações do coração divino, índices do seu infinito amor, naqueles momentos em que ele deu aos homens os seus mais apreciados dons, isto é, a si mesmo no sacramento da eucaristia, sua mãe santíssima, e a participação no oficio sacerdotal?

35. Ainda antes de celebrar a última ceia com seus discípulos, ao pensar em que ia instituir o sacramento do seu corpo e do seu sangue, com cuja efusão devia confirmar-se a nova aliança, sentiu o seu coração agitado de intensa emoção, que ele manifestou aos seus apóstolos com estas palavras: "Ardentemente desejei comer convosco este cordeiro pascal antes da minha paixão" (Lc 22,15); emoção que, sem dúvida, foi ainda mais veemente quando ele "tomou o pão, deu graças, partiu-o e deu-o a eles, dizendo: 'Isto é meu corpo, que se dá por vós; fazei isto em memória de mim'. Do mesmo modo tomou o cálice, depois de haver ceado, dizendo: 'Este cálice é a nova aliança em meu sangue, que por vós será derramado'"(Lc 22,19-20).

36. Com razão, pois, pode-se afirmar que a divina eucaristia, como sacramento que ele dá aos homens e como sacrifício que ele mesmo continuamente imola "desde o nascente até o poente" (Ml 1,11), e também o sacerdócio, são, sem dúvida, dons do sagrado coração de Jesus.

37. Dom igualmente precioso do mesmo sagrado coração é, como indicávamos, a santíssima Virgem, Mãe excelsa de Deus e Mãe amadíssima de todos nós, era justo que o gênero humano tivesse por mãe espiritual aquela que foi mãe natural do nosso Redentor, a ele associada na obra de regeneração dos filhos de Eva para a vida da graça. A propósito disso, escreve a respeito dela santo Agostinho: "Evidentemente ela é mãe dos membros do Salvador, que somos nós, porque com a sua caridade cooperou para que nascessem na Igreja os fiéis, que são membros daquela cabeça".(27)

38. Ao dom incruento de si mesmo sob as espécies do pão e do vinho, Jesus Cristo nosso Salvador quis unir, como testemunho da sua caridade íntima e infinita, o sacrifício cruento da cruz. Fazendo isso, deu exemplo daquela sublime caridade que com as seguintes palavras ele mostrara aos seus discípulos como meta suprema de amor: "Ninguém tem amor maior do que aquele que dá sua vida pelos amigos" (Jo 15,13). Pelo que o amor de Jesus Cristo, Filho de Deus, revela no sacrifício do Gólgota, de modo o mais eloqüente, o amor do próprio Deus: "Nisto conhecemos a caridade de Deus: em haver ele dado sua vida por nós; e assim nós devemos dar a nossa vida por nossos irmãos" (1Jo 3,16). Certamente, o divino Redentor foi crucificado mais pela força do amor do que pela violência dos algozes, e o seu holocausto voluntário é dom supremo feito a cada um dos homens, segundo a incisiva expressão do Apóstolo: "Amou-me e entregou-se por mim" (Gl 2,20).

3) Também a Igreja e os sacramentos são dons do sagrado coração de Jesus

39. Não se pode, pois, duvidar de que, participando intimamente da vida do Verbo encarnado, e pelo mesmo motivo sendo, não menos do que os demais membros da sua natureza humana, como que instrumento conjunto da Divindade na realização das obras da graça e da onipotência divina,(28) o sagrado coração de Jesus é também símbolo legítimo daquela imensa caridade que moveu o nosso Salvador a celebrar, com o derramamento do seu sangue, o seu místico matrimônio com a Igreja: "Sofreu a paixão por amor à Igreja que ele devia unir a si como esposa".(29) Portanto, do coração ferido do Redentor nasceu a Igreja, verdadeira administradora do sangue da redenção, e do mesmo coração flui abundantemente a graça dos sacramentos, na qual os filhos da Igreja bebem a vida sobrenatural, como lemos na sagrada liturgia: "Do coração aberto nasce a Igreja desposada com Cristo... Tu, que do coração fazes manar a graça".(30) A respeito desse símbolo, que nem mesmo dos antigos Padres, escritores e eclesiásticos foi desconhecido, o Doutor comum, fazendo-se eco deles, assim escreve: "Do lado de Cristo brotou água para lavar e sangue para redimir. Por isso, o sangue é próprio do sacramento da eucaristia; a água, do sacramento do batismo, o qual, entretanto, tem força para lavar em virtude do sangue de Cristo".(31) O que aqui se afirma do lado de Cristo, ferido e aberto pelo soldado, cumpre aplicá-lo ao seu coração, ao qual, sem dúvida, chegou a lançada desfechada pelo soldado precisamente para que constasse de maneira certa a morte de Jesus Cristo. Por isso, durante o curso dos séculos, a ferida do coração sacratíssimo de Jesus, morto já para esta vida mortal, tem sido a imagem viva daquele amor espontâneo com que Deus entregou seu Unigênito pela redenção dos homens, e com o qual Cristo nos amou a todos tão ardentemente que a si mesmo se imolou como hóstia cruenta no Calvário: "Cristo amou-nos e ofereceu-se a Deus em oblação e hóstia de odor suavíssimo" (Ef 5,2).

4) O sagrado coração de Jesus,
símbolo do seu tríplice amor a humanidade
na vida gloriosa do céu

40. Depois que o nosso Salvador subiu ao céu com seu corpo glorificado, e se sentou à direita de Deus Pai, não tem cessado de amar sua esposa, a Igreja, com aquele amor inflamado que palpita no seu coração. Traz nas mãos, nos pés e no lado os esplendentes sinais das suas feridas, troféus da sua tríplice vitória: contra o demônio, contra o pecado e contra a morte. E traz no seu coração, como em preciosa arca aqueles imensos tesouros de méritos, frutos dessa tríplice vitória, os quais ele com largueza distribui ao gênero humano. É essa uma verdade consoladora, ensinada pelo Apóstolo das gentes quando escreve: "Ao subir para o alto, levou consigo cativa uma grande multidão de cativos e derramou seus dons sobre os homens... Aquele que desceu, esse mesmo foi o que ascendeu sobre todos os céus, para dar cumprimento a todas as coisas" (Ef 4,8.10).

5) Os dons do Espírito Santo
também são dons do coração adorável de Jesus

41. A missão do Espírito Santo junto aos discípulos é o primeiro e esplêndido sinal do seu amor munificente, depois da sua subida triunfal à direita do Pai. Aos dez dias, o Espírito Paráclito, dado pelo Pai celestial, baixou sobre eles, reunidos no cenáculo, segundo a promessa que ele lhes fizera na última ceia: "Rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador para estar convosco eternamente" (Jo 14,16). O qual Espírito Paráclito, sendo, como é, o amor mútuo pessoal com que o Pai ama o Filho e o Filho ama o Pai, por ambos é enviado, e, sob forma de línguas de fogo, infunde na alma dos discípulos a abundância da caridade divina e dos demais carismas celestes. Esta infusão da caridade divina brotou também do coração de nosso Salvador, "no qual estão encerrados todos os tesouros da sabedoria e da ciência" (Cl 2, 3). Essa caridade é, portanto, dom do coração de Jesus e do seu Espírito. A esse comum Espírito do Pai e do Filho deve-se o nascimento e a propagação admirável da Igreja no meio de todos os povos pagãos, contaminados pela idolatria, pelo ódio fraterno, pela corrupção de costumes e pela violência. Foi essa divina caridade, dom preciosíssimo do coração de Cristo e do seu Espírito, que deu aos apóstolos e aos mártires aquela fortaleza com que eles lutaram até uma morte heróica, para pregarem a verdade evangélica e testemunhá-la com o seu sangue; foi ela que deu aos doutores da Igreja aquele zelo intenso por ilustrar e defender a fé católica; foi ela que alimentou as virtudes nos confessores e os excitou a levarem a cabo obras admiráveis e úteis, para a própria santificação, para a salvação eterna e temporal do próximo; e, finalmente, foi ela que persuadiu as virgens a espontânea e alegremente renunciarem aos gozos dos sentidos e se consagrarem inteiramente ao amor do esposo celeste. A essa divina caridade, que transborda do coração do Verbo encarnado e por obra do Espírito Santo se difunde nas almas de todos os crentes, o Apóstolo das gentes entoou aquele hino de vitória que exalta a um tempo o triunfo de Jesus Cristo cabeça e o triunfo dos membros do seu corpo místico, sobre todos quantos de algum modo obstam ao estabelecimento do reino divino de amor entre os homens: "Quem poderá separar-nos do amor de Cristo? A tribulação? Ou a angústia? Ou a fome? Ou a nudez? Ou o risco? Ou a perseguição? Ou o cutelo?... Por meio de todas essas coisas triunfamos por virtude daquele que nos amou. Pelo qual estou seguro de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as virtudes, nem o presente, nem o futuro, nem a força, nem o que há de mais alto, nem de mais profundo, nem outra criatura, poderá jamais separar-nos do amor de Deus que se funda em Jesus Cristo nosso Senhor" (Rm 8,35.37-39).

6) O culto ao coração sacratíssimo de Jesus
é o culto da pessoa do Verbo encarnado

42. Nada, portanto, proíbe que adoremos o coração sacratíssimo de Jesus Cristo, enquanto é participante, símbolo natural e sumamente expressivo daquele amor inexaurível em que ainda hoje o divino Redentor arde para com os homens. Mesmo quando já não está submetido às perturbações desta vida mortal, ainda então ele vive, palpita, e está unido de modo indissolúvel com a pessoa do Verbo divino, e, nela e por ela, com a sua divina vontade. Superabundando o coração do Cristo deamor divino e humano, e sendo imensamente rico com os tesouros de todas as graças que o nosso Redentor adquiriu com sua vida, seus padecimentos e sua morte, ele é, sem dúvida, uma fonte perene daquela caridade que o seu Espírito infunde em todos os membros do seu corpo místico.

43. Assim, pois, o coração do nosso Salvador reflete de certo modo a imagem da divina pessoa do Verbo, e, igualmente, das suas duas naturezas: humana e divina; e nele podemos considerar não só um símbolo, mas também como que um compêndio de todo o mistério da nossa redenção. Quando adoramos o coração de Jesus Cristo, nele e por ele adoramos tanto o amor incriado do Verbo divino como seu amor humano e os seus demais afetos e virtudes, já que um e outro amor moveu o nosso Redentor a imolar-se por nós e por toda a Igreja, sua esposa, segundo a sentença do Apóstolo: "Cristo amou a sua Igreja e sacrificou-se por ela para santificá-la, lavando-a no batismo de água com a palavra de vida, a fim de fazê-la comparecer perante si cheia de glória, sem mancha, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e imaculada" (Ef 5,25-27).

44. Assim como amou a Igreja, Cristo continua amando-a intensamente, com aquele tríplice amor de que falamos (cf. 1Jo 2,1); e esse amor é que o impele a fazer-se nosso advogado para nos obter do Pai graça e misericórdia, "estando sempre vivo para interceder por nós" (Hb 7,25). As preces que brotam do seu inesgotável amor, dirigidas ao Pai, não sofrem interrupção alguma. Como nos dias da sua carne" (Hb 5,7), também agora, que está triunfante no céu, ele suplica o Pai com não menor eficácia; e aquele que "amou tanto o mundo que deu seu Filho unigênito, afim de que todos os que nele crêem não pereçam, mas vivam vida eterna" (Jo 3,16). Ele mostra o seu coração vivo e como ferido e inflamado de um amor mais ardente do que quando, já exânime, o feriu a lança do soldado romano: "Por isto foi ferido (o teu coração), para que pela ferida visível víssemos a ferida invisível do amor".(32)

45. Por conseguinte, não pode haver dúvida alguma de que, ante as súplicas de tão grande advogado, e feitas com tão veemente amor, o Pai celestial, "que não perdoou seu próprio filho, mas o entregou por todos nós" (Rm 8, 32), por meio dele derramará incessantemente sobre todos os homens a abundância das suas graças divinas.

IV
NASCIMENTO E DESENVOLVIMENTO
PROGRESSIVO DO CULTO

AO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS

1) Albores do culto ao sagrado coração na devoção
às chagas sacrossantas da paixão

46. À vossa consideração, veneráveis irmãos, e à do povo cristão quisemos expor em suas linhas gerais a íntima natureza e as perenes riquezas do culto ao coração sacratíssimo de Jesus, atendo-nos à doutrina da revelação divina como à sua fonte primária. Estamos persuadidos de que estas nossas reflexões, ditadas pelo próprio ensinamento do Evangelho, mostraram claramente como, em substância, este culto não é outra coisa senão o culto ao amor divino e humano do Verbo encarnado, e também o culto àquele amor com que o Pai e o Espírito Santo amam os homens pecadores. Porque, como observa o Doutor angélico, a caridade das três Pessoas divinas é o princípio da redenção humana nisto que inundando copiosamente a vontade humana de Jesus Cristo e o seu coração adorável, com a mesma caridade o induziu a derramar o seu sangue para nos resgatar da servidão do pecado:(33) "Com um batismo tenho de ser batizado, e como me sinto oprimido enquanto ele não se cumpre!" (Lc 12,50).

47. Aliás, é persuasão nossa que o culto tributado ao amor de Deus e de Jesus Cristo para com o gênero humano, através do símbolo augusto do coração transfixado do Redentor, nunca esteve completamente ausente da piedade dos fiéis, embora a sua manifestação clara e a sua admirável difusão em toda a Igreja se haja realizado em tempos não muito distantes de nós, sobretudo depois que o próprio Senhor revelou este divino mistério a alguns de seus filhos após havê-los cumulado com abundância de dons sobrenaturais, e os elegeu para seus mensageiros e arautos.

48. De fato, sempre houve almas especialmente consagradas a Deus que, inspirando-se nos exemplos da excelsa mãe de Deus, dos apóstolos e de insignes padres da Igreja, tributaram culto de adoração, de ação de graças e de amor à humanidade santíssima de Cristo, e de modo especial às feridas abertas no seu corpo pelos tormentos da paixão salvadora.

49. Aliás, como não reconhecer nas próprias palavras: "Senhor meu e Deus meu" (Jo 20,28), pronunciadas pelo apóstolo Tomé e reveladoras da sua súbita transformação de incrédulo em fiel, uma clara profissão de fé, de adoração e de amor, que da humanidade chagada do Salvador se elevava até a majestade da Pessoa divina?

50. Mas, ainda que o coração ferido do Redentor tenha sempre levado os homens a venerarem o seu infinito amor a tempos sempre tiveram valor as palavras do profeta Zacarias que o evangelista João aplicou a Jesus crucificado: "Verão a quem traspassaram" (Jo 19,37; cf. Zc 12,10), todavia cumpre reconhecer que só gradualmente esse coração chegou a ser objeto de culto especial, como imagem do amor humano e divino do Verbo encarnado.

2)Princípio e progresso do culto ao sagrado coração
na Idade Média e nos séculos seguintes

51. Querendo agora indicar somente as etapas gloriosas percorridas por este culto na história da piedade cristã, mister é recordar, antes de tudo, os nomes de alguns daqueles que bem podem ser considerados os porta-estandartes desta devoção, a qual, em forma privada e de modo gradual, foi-se difundindo cada vez mais nos institutos religiosos. Assim, por exemplo, distinguiram-se por haver estabelecido e promovido cada vez mais este culto ao coração sacratíssimo de Jesus: s. Boaventura, s. Alberto Magno, s. Gertrudes, s. Catarina de Sena, o Beato Henrique Suso, s. Pedro Canísio e s. Francisco de Sales. A s. João Eudes deve-se o primeiro ofício litúrgico em honra do sagrado coração de Jesus, cuja festa se celebrou pela primeira vez, com o beneplácito de muitos bispos de França, a 20 de outubro de 1672. Mas entre todos os promotores desta excelsa devoção merece lugar especial s. Margarida Maria Alacoque, que, com a ajuda do seu diretor espiritual, o beato Cláudio de la Colombière, e com o seu ardente zelo, conseguiu, não sem admiração dos féis, que este culto adquirisse um grande desenvolvimento e, revestido das características do amor e da reparação, se distinguisse das demais formas da piedade cristã.(34)

52. Basta essa evocação daquela época em que se propagou o culto do coração de Jesus para nos convencermos plenamente de que o seu admirável desenvolvimento se deve principalmente ao fato de se achar ele em tudo conforme com a índole da religião cristã, que é religião de amor. Por conseguinte, não se pode dizer nem que este culto deve a sua origem a revelações privadas, nem que apareceu de improviso na Igreja, mas sim que brotou espontaneamente da fé viva, da piedade fervorosa de almas prediletas para com a pessoa adorável do Redentor e para com aquelas suas gloriosas feridas, testemunhos do seu amor imenso que intimamente comovem os corações. Evidente é, portanto, que as revelaçães com que foi favorecida s. Margarida Maria não acrescentaram nada de novo à doutrina católica. A importância delas consiste em que - ao mostrar o Senhor o seu coração sacratíssimo - de modo extraordinário e singular quis atrair a consideração dos homens para a contemplação e a veneração do amor misericordioso de Deus para com o gênero humano. De fato, mediante manifestação tão excepcional, Jesus Cristo expressamente e repetidas vezes indicou o seu coração como símbolo com que estimular os homens ao conhecimento e à estima do seu amor; e ao mesmo tempo constituiu-o sinal e penhor de misericórdia e de graça para as necessidades da Igreja nos tempos modernos.

3) Aprovação pontifícia da festa
do coração sacratíssimo de Jesus

53. Prova evidente de que este culto promana das próprias fontes do dogma católico dá-a o fato de haver a aprovação da festa litúrgica pela Sé Apostólica precedido a aprovação dos escritos de s. Margarida Maria. Na realidade, independentemente de toda revelação privada, e secundando só os desejos dos féis, por decreto de 25 de janeiro de 1765, aprovado pelo nosso predecessor Clemente XIII, a 6 de fevereiro do mesmo ano, a Sagrada Congregação dos Ritos concedeu aos bispos da Polônia e à arquiconfraria romana do sagrado coração de Jesus a faculdade de celebrar a festa litúrgica. Com esse ato, quis a Santa Sé que tomasse novo incremento um culto já em vigor, cujo fim era "reavivar simbolicamente a lembrança do amor divino" (35) que levara o Salvador a fazer-se vítima de expiação pelos pecados dos homens.

54. A essa primeira aprovação, dada em forma de privilégïo e limitadamente, seguiu-se, a distância de quase um século, outra de importância muito maior, e expressa em termos mais solenes. Referimo-nos ao decreto da Sagrada Congregação dos Ritos de 23 de agosto de 1856, anteriormente mencionado, com o qual o nosso predecessor Pio IX, de imortal memória, acolhendo as súplicas dos bispos da França e de quase todo o orbe católico, estendeu a toda a Igreja a festa do coração sacratíssimo de Jesus, e prescreveu a sua celebração litúrgica.(36) Esse fato merece ser recomendado à lembrança perene dos fiéis, pois, como vemos escrito na própria liturgia da festa, "desde então o culto do sacratíssimo coração de Jesus, semelhante a um rio que transborda, superou todos os obstáculos e difundiu-se pelo mundo todo".

55. De quanto até agora expusemos, veneráveis irmãos, aparece evidente que é nos textos da Sagrada Escritura, na tradição e na sagrada liturgia que os fiéis hão de encontrar principalmente os mananciais límpidos e profundos do culto ao coração sacratíssimo de Jesus, se desejam penetrar na sua íntima natureza e tirar da sua piedosa meditação alimento e incremento do fervor religioso. Iluminada, e penetrando nela mais intimamente mediante esta meditação assídua, a alma fiel não poderá deixar de chegar àquele doce conhecimento da caridade de Cristo no qual se resume toda a vida cristã, tal como, instruído pela própria experiência, o ensina o Apóstolo: "Por esta causa dobro meus joelhos ante o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo..., para que, segundo as riquezas de sua glória, vos conceda por meio do seu Espírito serdes fortalecidos em virtude no homem interior, e para que Cristo habite pela fé nos vossos corações, estando vós arraigados e cimentados em caridade; a ~m de que possais conhecer também aquele amor de Cristo que sobrepuja todo conhecimento, para serdes plenamente cumulados de toda a plenitude de Deus" (Ef 3,14.16-19). Dessa plenitude universal é precisamente imagem esplendida o coração de Jesus Cristo: plenitude da misericórdia própria do Novo Testamento, no qual "Deus nosso Salvador manifestou a sua benignidade e amor para com os homens" (Tt 3,4); pois "Deus não enviou seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas sim para que, por meio dele, o mundo se salve" (Jo 3,17).

4) Espiritualidade e excelência do culto ao coração sacratíssimo de Jesus

56. Desde quando promulgou os primeiros documentos oficiais relativos ao culto do coração sacratíssimo de Jesus, tem sido constante persuasão da Igreja, mestra da verdade para os homens, que os elementos essenciais desse culto, quer dizer, os atos de amor e de reparação tributados ao amor infinito de Deus para com os homens, longe de estarem contaminados de materialismo e de superstição, constituem uma forma de piedade em que se põe plenamente em prática aquela religião espiritual e verdadeira que o próprio Salvador anunciou à samaritana: "Já chega o tempo, e já estamos nele, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade" (Jo 4,23-24).

57. Lícito não é, portanto, afirmar que a contemplação do coração físico de Jesus impede de chegar ao amor íntimo de Deus e retarda o progresso da alma no caminho que leva à posse das mais excelsas virtudes. A Igreja repele completamente esse falso misticismo, como, por boca do nosso predecessor Inocêncio XI, de feliz memória, condenou a doutrina dos que divulgavam que não devem (as almas desta via interior) fazer atos de amor à santíssima Virgem, aos santos ou a humanidade de Cristo, porque, sendo sensíveis estes objetos, o amor que a eles se dirige também há de ser sensível. Nenhuma criatura, nem mesmo a santíssima Virgem e os santos, deve penetrar no nosso coração, porque só Deus quer ocupá-lo e possuí-lo". (37)Os que assim pensam são, naturalmente, de opinião que o simbolismo do coração de Cristo não se estende a mais do que ao seu amor sensível, e que, por conseguinte, não pode constituir novo fundamento do culto de latria, culto reservado só àquilo que é essencialmente divino. Ora, interpretação semelhante das sagradas imagens, todos vêem que é absolutamente falsa, porque lhes coarcta injustamente o significado. Contrária é a isso a opinião e o ensino dos teólogos católicos, e entre eles s. Tomás assim escreve: "Às imagens tributa-se culto religioso, não consideradas em si mesmas, quer dizer, enquanto realidades, mas sim enquanto imagens que nos levam até Deus encarnado. O movimento da alma para a imagem enquanto imagem não pára nesta, mas tende ao objeto por ela representado. Por conseguinte, do fato de tributar culto religioso às imagens de Cristo não resulta um culto de latria diverso nem uma virtude de religião diferente".(38) À própria pessoa do Verbo chega, pois, o culto relativo tributado às suas imagens, sejam estas as relíquias da sua acerba paixão, seja a imagem que supera todas em valor expressivo, quer dizer, o coração ferido de Cristo crucificado.

58. E, assim, do elemento corpóreo, que é o coração de Jesus Cristo, e do seu natural simbolismo, é legítimo e justo que, levados pelas asas da fé, nos elevemos não só à contemplação do seu amor sensível, porém a mais alto, até à consideração e adoração do seu excelentíssimo amor infuso, e, finalmente, num vôo sublime e doce ao mesmo tempo, até à meditação e adoração do amor divino do Verbo encarnado; já que à luz da fé, pela qual cremos que na pessoa de Cristo estão unidas a natureza humana e a natureza divina, podemos conceber os estreitíssimos vínculos que existem entre o amor sensível do coração físico de Jesus e o seu duplo amor espiritual, o humano e o divino. Em realidade, não devem esses amores ser considerados simplesmente como coexistentes na adorável pessoa do Redentor divino, mas também como unidos entre si com vínculo natural, nisto que ao amor divino estão subordinados o humano, o espiritual e o sensível, os quais são uma representação analógica daquele. Com isso não pretendemos que no coração de Jesus se deva ver e adorar a chamada imagem formal, quer dizer, a representação perfeita e absoluta do seu amor divino, não sendo possível, como não é, representar adequadamente por qualquer imagem criada a íntima essência desse amor; mas a alma fiel, venerando o coração de Jesus, adora juntamente com a Igreja o símbolo e como que a marca da caridade divina, caridade que com o coração do Verbo encarnado chegou até a amar o gênero humano contaminado de tantos crimes.

59. Portanto, neste assunto tão importante como delicado, é necessário ter sempre presente que a verdade do simbolismo natural, que relaciona o coração físico de Jesus com a pessoa do Verbo, repousa toda na verdade primária da união hipostática; quem isto negasse renovaria erros mais de uma vez condenados pela Igreja, por contrários à unidade da pessoa de Cristo em duas naturezas íntegras e distintas.

60. Essa verdade fundamental permite-nos entender como o coração de Jesus é o coração de uma pessoa divina, quer dizer, do Verbo encarnado, e que, por conseguinte, representa e nos põe ante os olhos todo o amor que ele nos teve e ainda nos tem. E aqui está a razão por que, na prática, o culto ao sagrado coração é considerado como a mais completa profissão da religião cristã. Verdadeiramente, a religião de Jesus Cristo funda-se toda no Homem-Deus mediador; de maneira que não se pode chegar ao coração de Deus senão passando pelo coração de Cristo, conforme o que ele mesmo afirmou: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim" (Jo 14,6). Assim sendo, facilmente deduzimos que, pela própria natureza das coisas, o culto ao sacratíssimo coração de Jesus é o culto ao amor com que Deus nos amou por meio de Jesus Cristo, e, ao mesmo tempo, o exercício do amor que nos leva a Deus e aos outros homens; ou, dito por outra forma, este culto dirige-se ao amor de Deus para conosco, propondo-o como objeto de adoração, de ação de graças e de imitação; e tem por fim a perfeição do nosso amor a Deus e aos homens mediante o cumprimento cada vez mais generoso do mandamento "novo", que o divino Mestre legou como sagrada herança aos seus apóstolos quando lhes disse: "Um novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros, como eu vos amei... O meu preceito é que vos ameis uns aos outros, como eu vos amei" (Jo 13,34; 15,12). Esse mandamento, verdadeiramente, é "novo" e "próprio" de Cristo; porque, como diz s. Tomás de Aquino: "Pouca diferença há entre o Antigo e o Novo Testamento; pois, como diz Jeremias: 'Farei um pacto novo com a casa de Israel' (Jr 31,31). Porém que este mandamento se praticasse no Antigo Testamento a impulsos de um santo temor e amor, isto pertencia ao Novo Testamento; de sorte que este mandamento existia na antiga lei não como próprio dela, porém como preparação da nova lei".(39)

V
EXORTAÇÃO À PRÁTICA

MAIS PURA E MAIS EXTENSA DO CULTO
AO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS

1) Convite a compreender e praticar melhor
as várias formas da devoção ao coração de Jesus

61. Antes de terminarmos as considerações tão belas e tão consoladoras que vos estamos fazendo sobre a natureza autêntica deste culto e a sua cristã excelência, nós, cônscios do ofício apostólico confiado em primeiro lugar a s. Pedro depois que ele por três vezes professou o seu amor a Jesus Cristo nosso Senhor, julgamos conveniente, veneráveis irmãos, exortar-vos uma vez mais, e por vosso intermédio exortar todos os caríssimos filhos que em Cristo temos, a que vos esforceis com crescente entusiasmo por promover esta suavíssima devoção, pois confiamos que dela hão de brotar grandes proveitos também nos nossos tempos.

62. Em verdade, se se ponderam devidamente os argumentos em que se funda o culto ao coração ferido de Jesus, todos verão claramente não se tratar aqui de uma forma qualquer de piedade, que se possa pospor a outras ou ter em menos, mas sim de uma prática religiosa sumamente apta para conseguir a perfeição cristã. Se segundo o conceito teológico tradicional, expresso pelo Doutor angélico - "a devoção não é outra coisa senão a vontade pronta de se dedicar a tudo o que se relaciona com o serviço de Deus",(40) pode haver serviço divino mais devido e mais necessário, e ao mesmo tempo mais nobre e mais suave, daquele que se presta ao seu amor? Que coisa pode haver mais grata e mais aceita a Deus do que o serviço que se faz à caridade divina, e que se faz por amor, sendo, como é, todo serviço voluntário, de certo modo, um dom, e constituindo o amor "o dom primeiro e origem de todos os dons gratuitos"? (41) Digna é, pois, de sumo apreço uma forma de culto mediante a qual o homem ama e honra mais a Deus e se consagra com maior facilidade e liberdade à caridade divina; forma de culto que o nosso próprio Redentor se dignou propor e recomendar ao povo cristão, e que os sumos pontífices confirmaram com memoráveis documentos e enalteceram com grandes louvores. Por isso, quem tivesse em pouco esse insigne benefício que Jesus Cristo deu à sua Igreja, procederia temerária e perniciosamente, e ofenderia o próprio Deus.

63. Isso posto, não se pode duvidar de que os cristãos que honram o sacratíssimo coração do Redentor cumprem o dever, por demais gravíssimo, que eles têm de servir a Deus, e que justamente se consagram a si mesmos e todas as suas coisas, seus sentimentos interiores e sua atividade exterior, ao seu Criador e Redentor, e que desse modo observam aquele divino mandamento: "Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com toda a tua mente e com todas as tuas forças" (Mc 12,30; Mt 22,37). Além disso, têm a certeza de que honrar a Deus não os move principalmente o proveito pessoal, corporal ou espiritual, temporal ou eterno, e sim a bondade do próprio Deus, a quem eles procuram obsequiar com correspondência de amor, com atos de adoração e com a devida ação de graças. Se assim não fora, o culto ao sacratíssimo coração de Jesus não corresponderia ao caráter genuíno da religião cristã, visto que com tal culto o homem não honraria principalmente o amor divino; e não sem motivo, como às vezes sucede, poder-se-ia increpar de excessivo amor e solicitude de si mesmos os que entendem mal esta nobilíssima devoção ou não a praticam convenientemente.

64. Tenham, pois, todos a firme persuasão de que no culto ao augustíssimo coração de Jesus o mais importante não são as práticas externas de piedade, e que o motivo principal de abraçá-lo não deve ser a esperança dos benefícios que Cristo nosso Senhor prometeu em revelações, e estas privadas, precisamente para que os homens cumpram com mais fervor os principais deveres da religião católica, a saber: o dever do amor e o da expiação, e assim também obtenham da melhor maneira o seu próprio proveito espiritual.

65. Exortamos, pois, todos os nossos filhos em Cristo a praticarem com entusiasmo esta devoção, tanto os que já costumam beber as águas salutares que manam do coração do Redentor, como sobretudo os que, à guisa de espectadores, olham de longe, com curiosidade e dúvida. Considerem esses com atenção tratar-se, como já dissemos, de um culto desde há tempos arraigado na Igreja, eque se apóia solidamente nos próprios Evangelhos; de um culto em favor do qual está claramente a tradição e a sagrada liturgia, e que os próprios pontífices romanos exaltaram com muitos e grandes louvores; pois não se contentaram com instituir uma festa em honra do coração do Redentor e estendê-la a toda a Igreja, mas ainda tomaram a iniciativa de dedicar e consagrar com rito solene todo o gênero humano ao mesmo sacratíssimo coração.(42) Considerem, finalmente, os frutos copiosos e consoladores que a Igreja tem colhido desta devoção: inúmeras conversões à religião católica, a fé de muitos reavivada, a união mais estreita dos cristãos com o nosso amantíssimo Redentor; frutos esses todos que, sobretudo nestes últimos decênios, têm sido observados com maior freqüência e esplendor.

66. Ao contemplarmos este magnífico espetáculo da extensão e do fervor com que a devoção ao sacratíssimo coração de Jesus se tem propagado em toda classe de fiéis, sentimo-nos cheios de alegria e de consolação; e, depois de darmos as devidas graças ao nosso Redentor, que é tesouro infinito de bondade, não podemos deixar de nos congratular paternalmente com todos os que têm contribuído eficazmente para promover este culto, pertençam eles ao clero ou as fileiras dos simples féis.

2) Grande utilidade do culto ao sagrado coração
de Jesus nas atuais necessidades da Igreja

67. Veneráveis irmãos, embora a devoção ao sagrado coração de Jesus tenha produzido em toda parte frutos salutares de vida cristã, contudo ninguém ignora que a Igreja militante na terra, e sobretudo a sociedade civil, ainda não alcançaram o grau de perfeição que corresponde aos desejos de Jesus Cristo, esposo místico da Igreja e Redentor do gênero humano. Não são poucos os filhos da Igreja que com numerosas manchas e rugas deturpam o rosto materno que em si mesmos refletem; nem todos os cristãos brilham por santidade de costumes, à qual por vocação divina são chamados; nem todos os pecadores que em má hora abandonaram a casa paterna têm voltado para de novo vestir-se nela com "a veste preciosa" (Lc 15,22) e pôr no dedo o anel, símbolo de fidelidade para com o esposo de sua alma; nem todos os infiéis se incorporaram ainda ao corpo místico de Cristo. Há mais. Porque, se bem que nos encha de amarga dor o ver a fé definhar nos bons, e contemplar como, pelo falaz atrativo dos bens terrenos, lhes decresce nas almas e aos poucos se apaga o fogo da caridade divina, muito mais nos atormentam as maquinações dos ímpios, que, agora mais do que nunca, parecem incitados pelo inimigo infernal no seu ódio implacável e aberto contra Deus, contra a Igreja e, sobretudo, contra aquele que representa na terra a pessoa do divino Redentor e a sua caridade para com os homens, consoante a conhecidíssima frase do doutor de Milão, "(Pedro) é interrogado sobre aquilo de que há dúvida, mas não o duvida o Senhor; pergunta, não para saber, mas para ensinar àquele que, na sua ascensão ao céu, ele nos deixava como vigário do seu amor".(43)

68. Certamente, o ódio contra Deus e contra os que legitimamente lhe fazem as vezes é o maior crime que o homem pode cometer, criado como foi este à imagem e semelhança de Deus, destinado a gozar da sua amizade perfeita e eterna no céu; visto que peio ódio a Deus o homem se afasta o mais possível do sumo Bem, sente-se impelido a repelir de si e do seu próximo tudo quanto vem de Deus, tudo quanto une com Deus, tudo quanto conduz a gozar de Deus, ou seja a verdade, a virtude, a paz e a justiça.(44)

69. Podendo, pois, observar que, por desgraça, cresce em algumas partes o número dos que se jactam de ser inimigos do Senhor eterno, e que os falsos princípios do "materialismo" se difundem teórica e praticamente; e ouvindo como continuamente se exalta a licença desenfreada das paixões, como estranharmos que em muitas almas se arrefeça a caridade, que é a suprema lei da religião cristã, o fundamento mais firme da verdadeira e perfeita justiça, o manancial mais abundante da paz e das castas delícias? Já o advertiu o nosso Salvador: "Pela inundação dos vícios, arrefecer-se-á a caridade de muitos" (Mt 24;12).

3) O culto ao sagrado coração de Jesus,
lábaro de salvação também para o mundo moderno

70. À vista de tantos males que, hoje como nunca, transtornaram profundamente os indivíduos, as famílias, as nações e o orbe inteiro, onde acharmos, veneráveis irmãos, um remédio eficaz? Poderemos encontrar alguma devoção que se avantaje ao culto augustíssimo do coração de Jesus, que corresponda melhor à índole própria da fé católica, que com mais eficácia satisfaça as necessidades atuais da Igreja e do gênero humano? Que homenagem religiosa mais nobre, mais suave e mais salutar do que este culto que se dirige todo à própria caridade de Deus? (45) Por último, que pode haver de mais eficaz do que a caridade de Cristo - que a devoção ao sagrado coração promove e fomenta cada dia mais - para estimular os cristãos a praticarem em sua vida a lei evangélica, sem a qual não é possível haver entre os homens paz verdadeira, como claramente ensinam aquelas palavras do Espírito Santo: "Obra da justiça será a paz" (Is 32,17)?

71. Pelo que, seguindo o exemplo do nosso imediato antecessor, queremos lembrar de novo a todos os nossos filhos em Cristo a exortação que, ao expirar o século passado, Leão XIII, de feliz memória, dirigiu a todos os cristãos e a quantos se sentiam sinceramente preocupados com a sua própria salvação e com a salvação da sociedade civil: "Vede hoje ante vossos olhos um segundo lábaro consolador e divino: o sacratíssimo coração de Jesus..., que brilha com refulgente esplendor por entre as chamas. Nele devemos pôr toda a nossa confiança; a ele devemos suplicar e dele devemos esperar a nossa salvação".(46)

72. Também vivamente desejamos que todos os que se gloriam do nome de cristãos e lutam ativamente por estabelecer o reino de Jesus Cristo no mundo, considerem a devoção ao coração de Jesus como bandeira e manancial de unidade, de salvação e de paz. Ninguém pense que esta devoção prejudique no que quer que seja as outras formas de piedade com que, sob a direção da Igreja, o povo cristão venera o divino Redentor. Ao contrário, uma fervorosa devoção ao coração de Jesus fomentará e promoverá, sobretudo, o culto a santíssima cruz, não menos do que o amor ao augustíssimo sacramento do altar. E, em realidade - como o evidenciam as revelações de Jesus Cristo a s. Gertrudes e a s. Margarida Maria - podemos afirmar que ninguém chegará a sentir devidamente a respeito de Jesus Cristo crucificado se não for penetrando nos arcanos do seu coração: Nem será fácil entender o ímpeto do amor com que Jesus Cristo se deu a nós por alimento espiritual se não é fomentando a devoção ao coração eucarístico de Jesus; a qual - para nos valermos das palavras do nosso predecessor Leão XIII, de feliz memória - nos recorda "aquele ato de amor supremo com que, entornando todas as riquezas do seu coração, afim de prolongar a sua estada conosco até a consumação dos séculos, o nosso Redentor instituiu o adorável sacramento da eucaristia".(47) Certamente, "não é pequena a parte que na eucaristia teve o seu coração, sendo tão grande o amor do seu coração com que ele nô-la deu".(48)

73. Finalmente, desejando ardentemente opor segura barreira as ímpias maquinações dos inimigos de Deus e da Igreja, como também fazer as famílias e as nações voltarem ao amor de Deus e do próximo, não duvidamos em propor a devoção ao sagrado coração de Jesus como escola eficacíssima de caridade divina; dessa caridade divina sobre a qual se há de construir o reino de Deus nas almas dos indivíduos, na sociedade doméstica e nas nações, como sabiamente advertiu o nosso mesmo predecessor, de piedosa memória: "Da caridade divina recebe o reino de Jesus Cristo a sua força e a sua beleza; o seu fundamento e a sua síntese é amar santa e ordenadamente. Donde necessariamente se segue o cumprir integralmente os próprios deveres, o não violar os direitos alheios, o considerar os bens naturais como inferiores aos sobrenaturais, e o antepor o amor de Deus a todas as coisas".(49)

74. A fim de que a devoção ao coração augustíssimo de Jesus produza frutos mais copiosos na família cristã e mesmo em toda a humanidade, procurem os féis unir a ela estreitamente a devoção ao coração imaculado da Mãe de Deus. Foi vontade de Deus que, na obra da redenção humana, a santíssima virgem Maria estivesse inseparavelmente unida a Jesus Cristo; tanto que a nossa salvação é fruto da caridade de Jesus Cristo e dos seus padecimentos, aos quais foram intimamente associados o amor e as dores de sua Mãe. Por isso, convém que o povo cristão, que de Jesus Cristo, por intermédio de Maria, recebeu a vida divina, depois de prestar ao sagrado coração o devido culto, renda também ao amantíssimo coração de sua Mãe celestial os correspondentes obséquios de piedade, de amor, de agradecimento e de reparação. Em harmonia com esse sapientíssimo e suavíssimo desígnio da divina Providência, nós mesmo, por ato solene, dedicamos e consagramos a santa Igreja e o mundo inteiro ao coração imaculado da santíssima Virgem Maria.(50)

4) Convite para celebrar dignamente
o primeiro centenário da festa do sagrado coração
de Jesus na Igreja universal

75. Completando-se felizmente este ano, como antes indicamos, o primeiro século da instituição da festa do sagrado coração de Jesus em toda a Igreja, instituição promovida pelo nosso predecessor Pio IX, de feliz memória, é vivo desejo nosso, veneráveis irmãos, que o povo cristão celebre este centenário solenemente em toda parte, com atos públicos de adoração, de ação de graças e de reparação ao coração divino de Jesus. Com especial fervor serão, sem dúvida, celebradas estas solenes manifestações de alegria cristã e de cristã piedade - em união de caridade e em comunhão de orações com todos os demais fiéis naquela nação em que por desígnio de Deus, nasceu a santa Virgem que foi promotora e propagadora infatigável desta devoção.

76. Entrementes, animado de doce esperança, e já pressagiando os frutos espirituais que da devoção ao sagrado coração de Jesus hão de transbordar copiosamente na Igreja se esta devoção, conforme explicamos, for entendida retamente e praticada com fervor, a Deus suplicamos que, com o poderoso auxílio da sua graça, queira atender estes nossos vivos desejos, e fazer que, com a ajuda divina, as celebrações deste ano aumentem cada vez mais a devoção dos féis ao sagrado coração de Jesus, e assim se estenda mais por todo o mundo o seu império e reino suave; esse "reino de verdade e de vida, reino de santidade e de graça, reino de justiça, de amor e de paz".(51)

77. Como penhor destes dons celestiais, concedemo-vos de todo o coração a bênção apostólica, tanto a vós pessoalmente, veneráveis irmãos, como ao clero e a todos os fiéis confiados à vossa solicitude pastoral, e em especial àqueles que de propósito fomentam e promovem a devoção ao sagrado coração de Jesus.

Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 15 de maio de 1956, ano XVIII do nosso pontificado.

PIO PP. XII.


Notas

(1) Enc. Annum Sacrum., de 25 de maio de 1899; Acta Leonis, 19(1900), pp. 71, 77-78.

(2) Enc. Miserentissimus Redemptor, de 8 de maio de 1928; AAS 20(1928), p.167.

(3) Cf. Enc. Summi Pontificatus, de 20 de outubro de 1939; AAS 31(1939), p. 415.

(4) Cf.AAS 32(1940), p. 276; 35(1943), p.170; 37(1945), pp. 263-264; 40(1948), p. 501; 41(1949), p. 331.

(5) Conc. Ephes., cân. 8; cf. Mansi, Sacrorum Conciliorum amplissima collectio, IV,1083, C.; Conc. Const. II, cân. 9; cf. ibid., IX, 382 E.

(6) Cf. Enc. Annum sacrum: Acta Leonis, 19 (1900), p. 76.

(7) Summa Theol., I-II, q. 2, a. 7; ed. Leon. t. 8,1895, p. 34.

(8) Summa Theol., III, q. 48. a. 2 ; ed. Leon. t. XI,1903, p. 464.

(9) Cf. Enc. Miserentissimus Redemptor; AAS 20(1928), p.170.

(10) Summa Theol., III, q. 46, a. l ad 3; ed. Leon., t. XI,1903, p. 436.

(11) S. Leão Magno, Epist. dogm: "Lectis dilectionis tuae" ad Flavianum Const. Patr. de 13 de junho de 449; cf. PL 54, 763.

(12) Conc. Chaelced. (a. 451); cf. Mansi. Op. cit. VII,115 B.

(13) S. Gelasio Papa, Tract. III: "Necessarium" De duabus naturis in Christo, cf. A. Thiel, Epist. rom. pont, a s. Hilaro usque ad Pelagium II, p. 532.

(14) Cf. s. Tomás, Summa theol., III, q. 15, a. 4; q. 18, a. 6; ed. Leon. t. Xl, 1903, pp.189 e 237.

(15) Apol. 2,13; PG 6, 465.

(16) Epist. 261, 3; PG 32, 972.

(17) In Joann. Homil. 63, 2; PG 59, 350.

(18) De fide ad Gratianum, II, 7, 56; PL 16, 594.

(19) Cf. Super Matth., 26, 37; PL 26, 205.

(20) Enarr. Ps. 87, 3; PL 37,1111.

(21) De Fide Orth., III, 6; PG 94,1006.

(22) Ibid., III, 20; PG 94,1081.

(23) Summa theol., I-II, q. 48, a. 4; ed. Leon. t. VI,1891, p. 306.

(24) Cf. Summa theol., III, q. 9, aa. l-3; ed. Leon. t. XI,1903, p.142.

(25) Cf. ibid., III, q. 33, a.2 até 3; q. 46, a. 6; ed. Leon. t. XI,1903, pp. 342, 433.

(26) Registr. epist., lib. IV, ep. 31 ad Theodorum medicum: PL 77, 706.

(27) De sancta virginitate, VI; PL 40, 399.

(28) Cf. s. Tomás, Summa theol., III, q.19, a. l; ed. Leon., t. XI,1903, p. 329.

(29) Summa theol., Suppl., q. 42, a. l até 3; ed. Leon., t. XII,1906, p. 81.

(30) Hino das Vésp. da festa do sagrado coração de Jesus.

(31) Summa theol, III, q. 66, a. 3, ed. Leon., t. XII,1906, p. 65.

(32) S. Boaventura, Opusc. X: Vitis mystica, c. III, n. 5: Opera Omnia, Ad Claras Aquas (Quaracchi), 1898, t. VIII, p. 164; cf, s. Tomás, Summa theol., III, q. 54, a. 4; ed. Leon., t. XI,1903, p. 513.

(33) Cf. Summa theol., III, q. 48, a. 5; ed. Leon., t. XI,1903, p. 467.

(34) Cf. Carta enc. Miserentissimus Redemptor: AAS 20(1928), pp.167-168.

(35) Cf. A. Gardellini, Decreta authentica, 1857, n. 4579, t. III, p.174.

(36) Cf. Decr. S. C. Ritum em N. Nilles, De rationibus festorum Sacratissimi Cordis Iesu et purissimi Cordis Mariae, 5e ed. Innsbruck,1885, t. I, p.167.

(37) Inocêncio XI, Const. Ap. Coelestis Pastor, (19 de novembro de 1687): Bullarium Romanum, Romae 1734, t. VIII, p. 443.

(38) Summa theol., II-II, q. 81, a. 3; ed. Leon., t. IX,1897, p.180.

(39) Comment. in Evang, s. Joannis, c. XIII, lect. VII, 3; ed. Parmae,1860, t. X, p 541.

(40) Summa theol., II-II, q. 82, a, l; ed. Leon. t. IX,1897, p.187.

(41) Ibid., I, q. 38, a. 2; ed. Leon. t. N,1888, p. 393.

(42) Cf. Leão XIII, Enc. Annum Sacrum: Acta Leonis, vol. 19(1900), p. 71s; Decr. S.C. Rituum, 28 de jun. de 1899, in Decr. Auth. III, n. 3712; Pio XI, Enc. Miserentissimus Redemptor; AAS, 20(1928), p.177s; Decr. S.C. Rituum, (29 de jan. de 1929): AAS 21(1929), p. 77.

(43) S. Ambrósio, Exposit. in Evang. sec. Lucam, t. X, n.175: PL 15,1942.

(44) Cf. s. Tomás, Summa Teol., II-II, q. 34, a. 2; ed. Leon. t. VIII,1895, p 274.

(45) Cf. Enc. Miserentissimus Redemptor: AAS 20(1928), p.166.

(46) Enc. Annum sacrum: Acta Leonis, 19(1900,) p. 79; Enc. Miserentissimus Redemptor: AAS 20(1928), p.167.

(47) Carta Apost. quibus Archisodalitas a Corde Eucharístico lesu ad S. Joachim de Urbe erigitur". (17 de fevereiro de 1903): Acta Leonis, 22(1903), p. 307s; cf. Enc. Mirae caritatis, (22 de maio de 1902): Acta Leonis, 22(1903), p.116.

(48) S. Alberto Magno, De Eucharistia, dist. VI, tr. l, c. l: Opera Omnia, ed. Borguet, vol. 38, Paris,1890, p. 358.

(49) Enc. Tametsi: Acta Leonis, 20(1900), p. 303.

(50) Cf. AAS 34(1942), p. 345a.

(51) Do Missal Rom. Prefácio de Cristo Rei.

quarta-feira, 16 de Setembro de 2009

Missa Sacrílega - I


XXXV - Meditação

A Missa sacrílega: Só a enunciação deste etentado faz estremecer a um homem de fé.


I. Por causa da multidão e enormidade dos pecados que encerra.
II. Por causa das horríveis criscunstâncias, que o acompanham.

I. Quantos pecados em uma Missa sacrílega, e que pecados! - Um padre, que ousa celebrar em estado de pecado mortal, sciens et volens, não comete somente um sacrilégio, comete quatro, diz Sto. Afonso Maria Ligório, de espécies inteiramente distintas: consagra, sendo inimigo de Deus, o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo: primeirosacrilégio; recebe, estando morto e manchado, um sacramento de vivos e o mais santo dos sacramento: segundo sacrilégio; administra-o a um indigno, quando o seu cargo de guarda das coisas santas o obriga a recusá-lo: quarto sacrilégio: Indigne conflicit, indigne sumit, indigne ministrat, ministrat indigno (Theol.mor.1.Vol,n.35) Por conseguinte infringe quatro obrigações diferentes, que lhe impõe sub gravi a virtude da religião.
Neste assunto os Santos Padres e os intérpretes exprimem-se com terrível energia. Cada um destes sacrilégios, dizem eles, é uma espécie de violência, que o profanador faz a Jesus Cristo, abusando indignamente da sua paciência e do poder que lhe deu sobre a sua pessoa (S. Cypr. Lib. de Lapsis) et Math.XXXVI,50). Como Judas, ele finge que ama o divino Mestre, a que atraiçoa: Amice, ad quid venisti? (MathXXXVI,50) (Amigo, ao que vieste?) - Dicit Amice, improperans simulationem (Orig. Tract.33 in Math.). Que horrenda hipocrisia! Parecendo adorar o Salvador, dá-lhe a morte, quando é da sua parte: Qui indigne abuntur communione mysterii, quandum in ipsis est, interimunt quem adorant (S. Chrys. Homil. 7 in Math.) O seu crime excede o dos judeus. Eles crucificaram Jesus Cristo, enquanto estava na terra e sujeito à morte; o padre sacílego atenta contra a sua imortalidade, e vai atacá-lo até no céu, no seu trono: Gravius peccant offerentes indigne Christum regnantem in coelis, quam qui eum crucifixerunt ambulantem in terris (S. Aug.). Que pérfida crueldade! que ímpia audácia!
O homem mais irreligioso tremeria só com o pensamento de tocar no Santíssimo Sacramento com as mãos enloadas: Quis adeo impius ut lufosis manibus Sacratissimum Sacramentum fractare praesumat? (Ibid) Ah! Quanto mais sensível é ainda o Filho de Deus à ofensa que lhe faz um padre profanador! Que lodo pode desagradar-lhe tanto como o pecado? Depois de uma queda vergonhosa, aproxima-se do altar para ali pronunciar as fórmulas sagradas, e exercer um ministério que exigiria à pureza dos anjos, é cuspir no rosto do Salvador (Quia sacra illius verba sacramenti ore immundo profert, in faciem Salvatoris spuit. -Petr. Bles. Serm.38), é poluir o Seu Corpo (Polluimus Corpus Christi, quando indigne accedimus ad altare. - S. Hier. in cap. Malach.), é cála-Lo aos pés (S. Ambr, in Epist. ad. Herb.c.X), é lançar o Seu Sangue num charco imundo. Ó execrável malvadez! Quantum flagitium in spurcissimam pectoris tui cloacam Sacratum Christi Saguinem profundere! ((S. Thom. a Villanov. de Sacr.c. III).
São Cirilo da Alexandria, explicando estas palavras de São João: Post buccellam introivit in eum Satanas, exclama: Que homem aquele, que acaba de receber em seu coração satanás e a Jesus Cristo! A satanás, para nele o fazer reinar, e a Jesus Cristo para nele o fazer sofrer! A satanás a quem dá um império absoluto, e a Jesus a quem o crucifixa! A satanás que ele antepõe a Jesus, ea Jesus que apresenta a satanás, como vítima que lhe sacrifica!
Concluamos que, dizer missa em estado de pecado mortal, é cometer o maior de todos pecados: Nemo deterius peccat, quam sacerdos qui indigne sacrificat (Ibid). Nullus gravius convincitur pecarre, quam presbyter, qui, dum indigne ministrat, quantum ad se, salutaris victimae sacramenta contaminat (S. Petr. Dam. Opusc.XXVI).

R.P. Chaignon em O Padre Santificado pela Oração ou Meditações Sacerdotais (Cap. XXXV)


O Lirvo da Confiança

Alguns anos atrás chegou às minhas mãos um livrinho intitulado "O Livro da Confiança" de Thomas de Saint-Laurent. Thomas é oriundo de uma antiga família francesa (sul), nascido no dia 7 de Maio de 1879. Morreu em 1949 em Uzès. Durante toda a sua vida escreveu uma grande actividade apostólica distinguindo-se como pregador. Em 1909 foi escolhido para pároco de Santa Perpétua em Nimes. Foi capelão da Juventude Católica, em 1920 foi nomeado cónego da Sé-Catedral de Nimes e cinco anos depois capelão do Carmelo de Uzès, tendo exercido muitos outros cargos. Doutourou-se em Teologia e licenciou-se em letras tendo sido ainda autor de uma vasta obra espiritual e pedagógica. Publicou vários livros sobre psicologia que o fizeram famoso, "Autocontrolo, a chave para o sucesso", Como livrar-se da Timidez", "Método Progressivo e completo da cultura psíquica", sendo este último um autêntico best-seller, traduzido para várias línguas como o inglês, alemão, espanhol e outras. Em relação à espiritualidade destaco entre outros "A Virgem Maria" (Livraria Civilização Editora), "Almas de Santos" e o Livro da Confiança, editados em Portugal e em muitos outros países. Este livro, "O Lirvo da Confiança" estimula todo o cristã a confiar em Deus e nos seu desígnios, a prática da virtude. Escrito de forma simples e clara, para que todos o percebam, O Presbítero expõe os fundamentos e os efeitos da virtude, falando directamente às almas, fazendo-as sentir-se confiantes, sacudindo a alma até dos cristãos mais incrédulos.

«Leitor piedoso - diz o sacerdote - se alguma vez este modesto livrinho te cair nas mãos, não o ponhas de parte com desdém. Não pretende ele nem encanto literário nem originalidade. Contém, apenas, verdades consoladoras que colhi nos livros inspirados e nos escritos dos Santos.
"Tenta lê-lo devagar, com atenção, em espírito de oração. Quase diria: media-o! Deixa-te penetrar docemente pela sua doutrina. A seiva do Evangelho palpita nestas páginas; haverá para as almas melhor alimento do que as palavras do Salvador?
"Que, ao acabar esta leitura, te possas confiar totalmente ao Mestre adorável que tudo nos deu: os seus tesouros, o seu amor, a sua vida, até à ultima gota de sangue!..."»

Espero que o Leiam que que vos seja muito útil. Podereis comprar este livro na "Livraria Civilização Editora, Rua Alberto Aires de Gouveia, 27 - 4050 Porto.

sábado, 12 de Setembro de 2009

EM FÁTIMA – LIBERTAÇÃO E CONVERSÃO

De entre os que, de boa ou má fé, saem da Santa Igreja Católica Apostólica Romana para se passarem às heresias protestantes, só Deus e Nossa Senhora sabem porque fui chamado à graça sem par da conversão.
Tudo quanto eu posso afirmar é que a minha boa e saudosa mãe chorava e rezava por mim! Era uma mulher muito piedosa e foi fiel como uma verdadeira cristã. Eu tentei levá-la enganada ao «culto» da minha seita. Ela, porém, tendo percebido logo do que se tratava, repeliu sem remissão a heresia. Mas não abandonou a minha alma! Com fé, voltou-se então para a oração persistente e confiante. No seu trabalho caseiro e pelos caminhos, rezava o «terço» continuamente. De certo, as suas lágrimas e orações subiram ao Céu, comovendo o Coração da Mãe das mães!
«O Espírito sopra aonde quer» e a graça de Deus é invencível. Assim foi dominado este encarniçado hereje pela bondade e poderosa intercessão de Nossa Senhora, alcançando-me de Seu Divino Filho a salvação e a paz.
E foi numa daquelas peregrinações que eu tanto amaldiçoava, organizada por almas generosas e cheias de fé, e que assim foram, de certo modo, recompensadas!
Continuando a minha história, chego ao ponto em que me encontrei empregado na Sociedade de Vinhos do Porto Constantino. Os meus patrões, Srs. Fernando Moreira de Almeida e Fernando Maria Guedes de Almeida, seu filho, são pessoas sinceramente religiosas.
Em Junho de 1953, resolveram levar todo o Pessoal, por conta da Casa, em peregrinação a Fátima, no dia 13. quanto a mim, aceitei a ideia radiante, tanto mais que «o passeio» (como eu lhe chamava a rir...) era de graça. E formei logo um plano: espalharia a minha propaganda herética no seio da própria peregrinação! Tencionava exercer nos meus companheiros toda a influência contrária à Fé Católica que eu pudesse. Ao mesmo tempo, de tudo o que visse na Cova da Iria, esperava encontrar motivo para depois «pregar» contra Fátima. Estava seguro do êxito dos meus maus propósitos e, portanto, incorporar-me-ia muito satisfeito na peregrinação.
Ora, Deus escreve direito por linhas tortas!...
Como preparação, houve uns dias de pregações por um Religioso Franciscano.
Ouvi dizer, nessa ocasião, que «ninguém vai a Fátima com as mãos vazias». Mal imaginava eu, que zombava escarninho de tudo aquilo, que as havia trazer, de facto, cheiinhas a transbordar!...
Como é costume, partimos no dia 12. Fomos percorrendo os lugares já consagrados, como Santa Maria de Alcobaça e Santa Maria da Vitória, «a Batalha». Estes dois templos grandiosos foram erguidos pela fé dos nossos Antepassados e são o assombro de todos quantos visitam. Aquelas pedras gloriosas exaltam os feitos patrióticos e a perseverante Fé Católica da Nação Portuguesa, sempre unida às maiores e mais puras glórias. Porém, eu sentia-me desligado da Fé e, portanto, da História da minha Pátria... e foi ali mesmo que, pelo contrário, eu senti mais ao vivo o meu fanatismo demoníaco e protestante, e assim o demonstrei. Olhava para o que me rodeava com desdém e raiva. E, na ânsia de amesquinhar todos aqueles belos e eloquentes testemunhos da nossa Fé secular, criticava tudo com acinte desprezo, escarnecendo de quanto ali representa a Santa Religião em que nasceu Portugal.
Ria-me e fazia rir os meus companheiros deprevenidos, ou sem convicções firmes. Outros, porém, aborrecidos com a minha atitude, afastavam-se ou ameaçavam queixar-se aos nossos chefes, o que, aliás por bondade, não fizeram.
Mas eu é que não podia calar!
Conforme, depois, íamos subindo a montanha bendita de Fátima e eu avistava os cruzeiros da Via-Sacra, enchia-me de tremenda fúria contra o sinal da cruz.
Na camioneta, sem me calar um momento, continuava sempre com a propaganda escarninha e demolidora. Tentava por todos os meios tirar aos meus companheiros a pouca ou muita fé com que eles se aproximavam do lugar abençoado da Visitação de Nossa Senhora a Portugal e ao Mundo!
Chegámos ao Santuário pelas vinte horas. As nossas camionetas pararam junto da Praceta de São José. Logo ali apareceu um rapzazinho a apregoar «velinhas». Então, no meio de muita galhofa, comprei uma, que havia de ficar memorável!...
Em seguida ao jantar, todos nos reunimos ao Sr. Fernando Moreira de Almeida e sua Ex.ma Esposa, a Sr.a D. Maria Leonor, ambos Servitas de Nossa Senhora. M éramos mais de duzentas pessoas, com as nossas famílias. Eles aguardavam junto da Capelinha das Aparições para distribuirem gratuitamente as velas aos que as quisessem.
Entretanto, principiou a reza do «terço».
Eu continuava, agora em voz baixa, a zombar de tudo. O locutor do Santuário anunciou que se ia formar a procissão. Os carrilhões da Basílica guiavam o povo nos lindo cânticos de Fátima. Apareceram as primeiras luzinhas trémulas e, daí a pouco, era um mar de luz que alastrava!...
Eu estava convencido de que Fátima era uma mentira. Não podia sequer imaginar o que ali via gora com os meus olhos espantados! Fiquei furioso contra a multidão dos Fiéis. Tinha ânsias de desatar a descompor e a correr à pancada dali para fora toda aquela gente! A minha raiva crescia e subia como maré viva. Quando ouvi anunciar a saída do andor com a Imagem de Nossa Senhora de Fátima, comecei a tremer de violenta e mal contida ira.
De repente, avistei-a! Julguei enlouquecer de ódio! É indiscritível o furor que então me assaltou. Parei louco de raiva! Terríveis blasfemeas saíram da minha boca por entre os dentes cerrados. Fechei os punhos convulsos e encarei-a com verdadeiro e satânico ódio pessoal. De certo, já fui contido pelo poder divino e, só assim, não me atirei a ela para a desfazer com as mãos e os dentes, como diabólicamente me apeteceu!
O Inferno odeia Nossa Senhora! Para ele é a Inimiga desde o Princípio (Gen.3,15). Naquele lugar Ela é a vencedora, aclamada em todo o Mundo, desta grande Batalha de Deus, que é Fátima no nosso tempo apocalíptico! A Mulher bendita - «terrível como exército em ordem de batalha» - ali veio trazer a Mensagem que, mais uma vez, congrega os Filhos de Deus para o Bom Combate, vivificando a Fé, renovando a Esperança e tudo abrasando na Caridade.
Outrora o Povo Escolhido devia ver nas imagens de ouro dos Querubins (mandadas colocar por Deus na Arca da Aliança) o símbolo da reverência devida à Glória do Altíssimo, manifestada do meio das asas estendidas (Ex.25, 18-22).
Certamente que, na branca imagem da Virgem Mãe do Messias – Arca da Nova Aliança – o Inimigo há-de ver o sinal da Presença, na Glória de Seu Filho, d’Aquela que, por Ele, lhe esmaga a cabeça.
E naquele terrível instante terá sido, então, pressentida a grande e próxima derrota que lhe ia ser infligida pelo poder misericordioso da Senhora, porque aqueles momentos foram realamente demoníacos e medonhos. Eu atingira a curva máxima do meu ódio!
Quando deles me lembro, ainda sofro!
Bendita seja Nossa Senhora que nos perdoou tão generosamente! Bendita seja!
Entretanto, obedecendo à voz do locutor, a procissão ia-se formando e nós começámos a caminhar todos juntos. Os meus companheiros trataram de acender as suas velas.
Com os nossos bons patrões à frente, seguíamos perto do andor. Era um espectáculo comovente! Mas eu, raivoso de despeito, não cessava de escarnecer e rir. Para evitar de dar nas vistas do meu chefe, resolvi divertir-me e acender também a minha luz, dizendo sempre mil graçolas blasfemas. Voltei-me, pois, para um dos meus colegas e acendi na dele a minha vela.
E começou aqui o prodígio:
No mesmo instante em que, depois de acesa, a endireitei, ela apagou-se de repente! Pedi a outro e tornei a acendê-la, risonho e irónico. Num ápice, voltou a apagar-se.
Comecei então a teimar muito divertido, terceira, quarta e quinta vez, mas já um tanto enervado... contudo, continuava a rir e a galhofar, dizendo que «se calhar eu fora burlado e a minha vela não era igual à dos outros!» Pois se, de cada vez que eu a acendia, via brilhar a chama muito viva, e em seguida extinguir-se, de súbito, misteriosamente! Era mesmo como se apagassem! Que significava aquilo?!
O tempo estava sereno e eu, olhando à minha volta e junto de mim, avistava ao longe e ao perto as velas acesas de toda aquela multidão, que brilhavam na noite como estrelinhas em prece. Ah! Mas eu não desisteria!
Querendo mostrar-me forte e seguro, apesar de as mãos me tremerem um pouco, ria-me e teimava sempre! Comecei assim a pedir lume a uma e outra das pessoas que passavam ao meu lado a cantar, comas as suas velinhas a brilhar.
Enquanto eu parava um instante para acender a minha luz – e ela se apagava de maneira tão insólita! – os meus companheiros já iam longe...
E eu sempre a acender a minha vela! E ela a apagar-se inexplicávelmente! Parecia que lhe sopravam!
Perdi a conta do número de vezes que a acendi e vi extinguir-se de forma tão extranha a chama viva! Despeitado e escarninho, teimei enquanto pude. Por fim, já não me ria... pois principiei a reparar, desconfiado e espantado, que afinal, aquilo só a mim acontecia!
Do fundo da minha consciência parecia querer subir um aviso silencioso...
Precisamente quando eu começava a sentir-me abalado, aconteceu o pior: todo o meu corpo foi como que «aprisionado», sacudido por um estremeção e trespassado por frio de morte. Ao mesmo tempo, começou a correr-me da cabeça aos pés um copioso e gelado suor!
Assombrado e aterrado, deitei as mãos à cabeça: tinha os cabelos duros, inteiriçados e em pé! Perguntava a mim mesmo, transido de pasmo, o que seria aquilo?! Só então, no meio de grande perturbação, é que desisti de acender a minha vela.
Na maior ansiedade, procurei com um olhar aflito os meus companheiros, para me ajuntar a eles e buscar amparo. Avistei, lá longe, o andor branco da Senhora... Lembrei-me logo de que eles deviam ir ali pertinho d’Ela! Quis ir também!...
Mas foi então que experimentei o maior terror da minha vida: assim que este pensamento salvador despertou na minha mente, caiu sobre mim, bem em cima dos meus ombros, um «peso» insuportável! Eu queria ir... mas, conforme levantava um pé (ou tentava levantá-lo) para caminhar ao encontro de Nossa Senhora, o terrível «peso» era cada vez maior e, com incrível força, prendeu-me ao chão! Todo a tremer, banhado em suores frios, com a língua enrolada dentro da boca endurecida, sentia-me sucumbir debaixo daquele medonho «peso» e aprisionado num laço implacável. Ao mesmo tempo, todo o meu ser, físico e intelectual, era trespassado por uma indiscritível e pavorosa agonia!
Cheio de terror, quis gritar. Julguei mesmo que gritava a pedir socorro, mas ninguém me ouvia, nem via o que me estava a acontecer! Eu ficara ali, no meio de tanta gente, «aprisionado» e «mudo»!...
A procissão era um sereno rio de luz, na noite escura e branda. Os peregrinos, com velas acesas diante dos rostos felizes, passavam rezando e cantando, com os olhos postos na suave Imagem da Senhora das pombas brancas... Desviam-se pacientemente de mim e continuavam sempre em frente!
E eu a debater-me, ali, angustiado, a lutar desesperadamente na minha pobre alma prisioneira, para me libertar daquela «prisão»! o meu sofrimento era atroz! Nunca me esquecerei. Ainda hoje estremeço quando nele penso! Posso afirmar que sentia e ouvia ranger os meus ossos. Tais eram os esforços sobre-humanos que fazia para me mexer e livrar daquela terrível prisão. Mas uma «força» incrível chumbava-me ao chão! E tudo foi inútil!
Não pude alcançar Nossa Senhora no seu andor branco e florido!
Jamais encontrarei as palavras próprias para dar uma pálida ideia do que sofri e do meu terror naqueles momentos!
Contudo, e apesar disso, eu ainda blasfemava, agora só em pensamento, porque não podia falar.
Debatendo-me naquela medonha alição e esmagado sob o insólito «carrego», comecei por fim a lembrar-me vagamente de que aquilo tudo podia ser castigo...
Mas, então, é porque eu estava enganado e ali é que se encontra a VERDADE?!
Teimosamente resisti a este salutar pensamento! Apeguei-me com desespero aos erros antigos e ao desprezo que aprendera a sentir no protestantismo pela Mãe do Senhor!
E, no meio desta espantosa luta, esforçava-me em vão por fugir! Essa era a minha ânsia. Fugir dali!
Mas como, se eu estava «preso» e esmagado debaixo daquele «carrego» insuportável? Raciocinava, mas não era senhor dos meus movimentos. Oh! Que pavorosos momentos.
Lá longe, voltada agora de frente para mim, Nossa Senhora regressava em triunfo e rodeada de veneração e amor, à sua humilde Capelinha...
E foi então que senti, de súbito, que uma força poderosa e incrível me fazia virar para a Basílica, impelindo-me para a frente! Conheci que podia, enfim, fugir «àquilo» que pesava como chumbo sobre os meus ombros! fugir,gora só em pensamento, porque não podia falar.
Debatendo-me naquela medonha aflição e esmagado sob o insólito «carrego», comecei por fim a lembrar-me vagamente de que aquilo tudo podia ser castigo...
Mas, então, é porque eu estava enganado e ali é que se encontrava a VERDADE!?
Teimosamente resisi a este salutar pensamento! Apeguei-me com desespero aos erros antigos e ao despreezo que aprendera a sentir no Protestantismo pela Mãe do Senhor!
E, no meio desta espantosa luta, esforçava-me em vão por fugir! Essa era a minha ânsia. Fugir dali!
Mas como, se eu esva «preso» e esmagado ddebaixo daquele «carrego» insuportável? Raciocinava, mas não era senhor dos meus movimentos. Oh! Que pavorosos momentos!
Lá longe, voltada agora de frente para mim, Nossa Senhora regressava em triunfo e rodeada de veneração e amor, à sua humilde Capelinha...
E foi então que senti, de súbito, que uma força poderosa e invencível me fazia virar para a Basílica, impelindo-me para a frente! Conheci que podia, enfim, fugir «àquilo» que pesava como chumbo sobre os meus ombros! Fugir, alcançar um refúgio, libertar-me! Comecei a andar...
Tomando de grande aflição, vi-me a atravessar o Santuário... mas, conforme me aproximava da Basílica – ia para lá como que conduzido, sem pensar nem querer! – o meu andar tornava-se mais fácil...
Ao chegar à escadaria já a pude subir quase a correr. Meti como uma seta pela Basílica dentro, sempre a direito, como levado por vigoroso e irresistível impulso, e szó parei diante do Altar-mor, do lado do túmulo do Francisco, onde caí, enfim, de joelhos! Ali fiquei longos minutos, todo trémulo, com olhar vago, sem saber onde estava.
Poré, aquele horrível «peso» e aquela estranha «prisão» mostravam agora uma espécie de fraqueza... soltava-se-me a língua e eu balbuciei algumas palavras enquanto começava a ter consciência de tudo o que me rodeava e do que via...
E foi então que os meus pobres olhos dilatados de angústia... depararam com a bendita imagem da Senhora, ao lado do Altar. Súbitamente lúcido, fitei-A assombrado... e, (não me atrevo a afirmá-lo!) pareceu-me que a via sorrir-se para mim! E esse instante fiquei livre e completamente mudado.
Sim, foi nesse minuto de graça que eu senti a alma liberta do véu espesso do erro e o corpo daquela «prisão» maligna. Num relance dera-se o prodígio... apesar do meu ódio protestante contra as santas imaggens! A lição é digna de ser meditada...
A tremer, comovido, eu não tirava o olhar deslumbrado dAquele «Sinal» da misericórdia divina, sentindo que nascia de novo. Agora, o meu coração era manso e humilde, e eis que a orgulhosa cerviz do hereje se abatera diante d’Aquela que tanto desprezara e que todas as gerações aclamarão Bem-aventurada, pois o Omnipotente obrou n’Ela grandes maravilhas (c.f. Luc.1,48-49)
Ali, diante do Santíssimo Sacramento, e pelo poder e bondade de Nossa Senhora, terminou aquela temerosa batalha em que eu me sentiria como que disputado por duas forças e, por fim, ganho pela mais poderosa.
é certo que eu tinha ainda muito que sofrer! Porém, tudo o que depois me aconteceu e eu conto adiante, já não conseguiu vencer-me. Não passou duma nova tentativa, que afinal se transformou num «aguilhão» salvador.
Aquele foi, sem dúvida, o momento culminante da monha conversão.
Depois de libertado, eu só tinha um desejo: alcançar o perdão da Senhora!
Com a alma trespassada pela graça divina e iluminada por uma luz sem par, vi, dolorosamente contrito, quanto havia odiado, blasfemado e ofendido a Mãe do Senhor e nossa Mãe! Ai de mim! Não encontro palavras para contar a minha dor! Com os olhos rasos de lágrimas e as mãos erguidas para a Sua doce imagem, cheio de temor e arrependimento, comecei a dizer à Soberana Rainha do Rosário de Fátima:
«Oh! Nossa Senhora!! Oh! Senhora de Fátima! Eu odiei-Te durante muitos anos. Agora sei que tenho andado enganado. Aqui estou a pedir-Te perdão de tudo, e de quanto disse na viagem e na procissão das velas. Mas como hei-de pedir-Te perdão? Como posso merecer que me perdoes?!»
Era eu próprio que, medindo pelo passado a minha culpa, me julgava indigno do Seu perdão!
Lágrimas irreprimíveis corriam-me pelas faces esmaecidas. Eu até falava alto na minha dor e no meio daquela boa gente, toda ocupada na sua devoção... e já habituada aos prodígios de Fátima! Em dado momento, atemtei nos dizeres da placa de mármore sobre o t´´umulo de Francisco e assim fiquei a conhecer. Vi que muitas pessoas ali rezavam, acendendo as suas velinhas e logo me lembrei da que ainda conservava na mão. Receoso e comovido, acendia-a também... Vendo-a brilhar, fui colocá-la a um canto, no túmulo do Pastorinho...

E ali fiquei a vê-la arder, agora tão sereninha e viva como as outras!
Voltei-me freverosamente para FRancisco e pus-me a rezar com muita fé:«Roga a Nossa Senhora que me perdoe, porque para sofrimento já chega!(Eu ligava, por intuição os factos e referia-me ao tormento pavoroso que passara com aquela terrível «prisão» e mortal agonia). Eu não sei se terei perdão, mas tu bem sabes que tenho três filhos por baptizar! (O mais velhinho ainda fora baptizado na Santa Igreja, mas os três últimos «baptizara-os» na seita. Naquele momento eu sentia que esse baptismo nada valia...). Tenho também de resolver a minha situação casando-me!» («casara-me na seita...). Aflito e ansioso suplicava-lhe que me ajudasse e, na minha perturbação, cheguei a pedir-lhe:«Olha, se ando bem (no protestantismo) deixa-me andar! Mas se não ando, como agora sei, então faz com que eu não possa descansar enquanto não voltar aqui o mais depressa que poder, já para o mês que vem.»
Naquele momento, confusamente, eu pressentia um perigo e tinha receio da minha fraqueza e medo do meu passado...
Por isso eu rezava com tanto ardor e mal podia reprimir o pranto. Abalado até ao fundo da minha alma, era agora outro homem. Com devoção dei a minha esmolinha e guardei um cravo das flores com que os fiéis cobriam o túmulo do Pastorinho.
Ignorando o túmulo da Jacinta e sem saber como, também lá fui ter e ali vi a placa com o seu nome. Pedi-lhe da mesma forma o que rogara ao irmão, deixando-lhe também uma esmolinha...
voltei depois para junto do FRancisco e para ali fiquei a ver a minha vela arder até ao fim... aquela mesma vela!!
Sentia-me pouco consolado depois destes pequenos gestos de devoção... Ah! quem poderá avaliar o milagre duma conversão à Fé Católica, vindo-se do protestantismo - das suas negações, dos seus erros e de todos os seus preconceitos?! Só os que experimentaram!
Finalmente acabei por deixar a Basílica. Fui direito à humilde Capelinha de Nossa Senhora. E ali estive muito tempo, abrindo e deixando falar o coração contrito como podia...
É inútil tentar descrever em línguagem humana os meus sentimentos naquele humilde e maravilhoso lugar: a Capelinha das Aparições.
Nossa Senhora, Mãe benigna e Soberana Rainha, de certo, tudo compreendeu e compassiva recebeu de mim!
Nosso Senhor, que é Pai de misericórdia, é também Justo Juiz e «dará a cada um segundo as suas obras». Eu tal me atrevia a levantar os olhos para o Céu, conhecendo agora quanto fora infiel a Deus, renegando a Sua Igreja e odiando a Sua Santíssima Mãe - pelo que daria estreitas contas! Ai! o que eu não teria feito, como simples homem, àquele ou àqueles que fizessem à minha mãe e dela dissessem metade! - do que eu fizera e dissera da excelsa Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo! E Ele é um Filho infinitamente melhor do que eu, Ele é Deus - cujo 4.º Mandamento nos manda honrar Pai e Mãe!
Mas agora eu punha a minha esperança nessa Mãe bendita e poderosa que tanto desprezara! O Senhor me julgará! Mas a Senhora é Sua Mãe e minha Mãe - sómente e sempre Mãe! Oh! consoladora certeza!
Seu Divino Filho me acolheria então pela sua poderosa intercessão, visto que eu fora por Ela libertado. Humuilde e arrependido penitente, ali permaneci suplicando e recebendo o Seu auxílio, sob o doce e entristecido olhar de Nossa Senhora de Fátima. Quando já não podia mais, deixei a custo a Capelinha. Lentamente, passando pelo Monumento ao Sagrado Coração de Jesus, comecei a subir a imensa esplanada, por onde há pouco descera a caminho da libertação.
Chegado ao cimo, sentei-me, esvaído, na balaustrada de pedra. Dali, pus-me a olhar a Basílica coroada pela cruz luminosa, e as luzes das velas que rasgavam a noite - símbolos da Fé que dissipa astrevas do erro...
Decorria, fervorosa e recolhida, a Hora de penitência e adoração a Jesus na Divina Eucaristia. «É esta vigília propiciatória que prepara os prodígios do dia 13. (Disse um orador sagrado durante a meditação dos Mistérios do Terço, naquele mesmo lugar). Ah como eram felizes aqueles fiéis católicos (portugueses e estrangeiros de todo o Mundo!) unidos à volta do Pão Vivo da Unidade, na Casa do Pai!
Sob o olhar atento e intercessor da Mãe - Família de Deus! - humildes e grandes, oravam por eles e pelo «mundo» que os desdenha, ali, no Altar do Mundo!
Encostei a minha pobre cabeça a um dos altos candeeiros. Sentia-me completamente exausto, como um homem que acabava de atravessar duma grande tempestade. Sozinho naquele lugar solitário, assombrado com tudo o que me acontecera, comecei doloridamente a meditar e a recordar...
Ai! Como onda alterosa que se abate sobre a praia deserta, assim o passado e a minha blasfema atitude na viagem e na procissão das velas, se abateram sobre «o meu coração contrito e humilhado».
e, então, não me envergonho de o confessar aqui, chorei e solucei de dor e arrependimento. Chorei com temor e remorsos, desabafando e aliviando a minha pobre alma, agora esvaziada de tqanto mal!
Doces e abençoadas lágrimas! Deus seja louvado por mas ter concedido!
E bendita seja Nossa Senhora por mas ter alcançado!

Sem poder desfitar a Basílica e a mística cerimónia que lá adiante se desenrola, e da qual eu não me julguei digno - murmurava cheio de espanto e dor:«Ai! Nossa Senhora, o que eu fui! Ai! o que eu tenho feito!»
Agora que tudo conhecia, egrande o meu temor... Mas, afoguei naquelas lágrimas contritas o desespero que tentava apoderar-se de mim!
Por volta das três horas da madrugada, sentindo-me muito fraco e tendo terminado uma Hora de adoração, levantei-me e dirigi-me para a camioneta. Descansei o corpo junto dos meus companheiros adormecidos. O corpo, digo bem, porque o espíirito só mais tarde conheceria o repouso e a paz...
Às seis da manhã começou o movimento do Dia 13. Fui direito à Basílica, sentindo-me atraído para junto dos Pastorinhos. Mas lembrei-me de que a nossa peregrinação assistira a uma Missa por alma do Sr. António Moreira de Almeida, que fora meu patrão também. Vim por isso procurar os meus camaradas. E fiquei timidamente à porta da Capela do Hospital, onde a Missa era celebrada... Tive, porém, de sair logo, sufocado pela comoção, e dar um volta até me dominar: Ouvira dizer que levantassem a mão os que queriam confessar para comungarem...
Eu não me atrevi, eu não podia!
Retive ainda o meu segredo... nem sei bem porquê! Por isso tanto sofri depois!
Terminado o Santo Sacrifício, todos foram almoçar alegremente. Só eu não conseguia! Isolava-me e fugia..., Parecia-me que, se abrisse a boca, mesmo só para comer, as lágrimas que me enchiam o coração, transbordariam.
Depois, enquanto decorreram as tão famosas cerimónias da Peregrinação oficial, eu ia ora da Capelinha para a azinheira, ora ia à Basílica e voltava. Inquieto, dorido e perturbado, quase não dei verdadeiramente conta do que via, até começar a comovente «Procissão do Adeus». Percebi, então, que era o fim daquela peregrinação inesquecível do dia 13 de Junho de 1953!
Fitava com os olhos rasos de água o mar branco dos lenços e acenar, enquanto seguia com um olhar comovido e já saudoso a doce Mãe de Deus e dos Homens...
Dor, amor, remorso, alegria, saudade que não mais passou!... tudo isto se misturava e me pungia o coração.
Tirei também o meu lenço, mas ão ousei acenar `Senhora... só enxuguei as lágrimas com ele.
Ah! Aquelas extraordinárias horas da véspera à noite, e aquela radiosa e bendita manhã, ficaram para sempre gravadas na minha alma! Para sempre!

OH Santa e poderosa
Mãe de Deus e dos Homens,
Nossa Senhora de Fátima!
Sede bendita pela vossa
Bondade e Clemência!
Vós que sois o Auxílio dos Cristãos,
Rogai por nós
E pelos nosso inimigos!
Convertei, ó Mãe! os nossos
«Irmãos separados»
E os que buscam a Deus
Por caminhos errados!

E louvado seja o Omnipotente pelas Grandes Maravilhas que em Vós obrou!

iIII SINGULAR CAPÍTULO

Pode parecer que a história da minha milagorsa conversão esteja terminada. Contudo, ela ficaria incompleta sem este capítulo singular...
Por amor da verdade tenho coragem e fé para nada omitir. só assim será completo o testemunho aqui dado.
Seja tudo para glória de Deus e louvor da Mulher-Bendita entre todas as mulheres - que esmaga a cabeça do Inimigo.
***
Na camioneta, os meus companheiros, quando me viram, puseram-se a soltar mil exclamações, dizendo que eu «parecia um desenterrado»! Tal era, na verdade, a palidez cadavérica do meu rosto desfigurado...
Pelo caminho, estranharam pasmados o meu silêncio e recolhimento, a contrastar tanto com o barulho e a dissipação maligna que eu fazia e provocara à ida.
É que eu já não era o mesmo! Mas escondia de todos o meu segredo. Dizia-lhes, então, que nem dormira, nem comera mais nada desde o jantar da chegada... E era verdade, porque eu não pudera! Mas só Deus sabia o que me ia na alma!
Eu vinha abismado e como que esvaziado...
Cheguei a casa à uma da madrugada. Logo que a minha companheira me abriu a porta, abracei-me a ela sufocado pela comução. Às suas perguntas aflitas respondi: «Ai! o que nós fizemos! Olha que temos andado enganados, não sabes o que me aconteceu em Fátima! Lá é que eu vi como nos enganaram e nós enganámos tanta gentinha com uma falsa religião!» E então contei-lhe tudo. Ela, assombrada e também mortificada, começou a chorar comigo. Mas, apesar da sua aflição, sentiu-se aliviviada e disse-me estas palavras: «Eu bem te dizia no princípio! Eu só fui depois (para o protestantiismo) fiada em ti e para te acompanhar. Mas bem me custou! Ai ! os filhos que ainda temos por baptizar! (lembrou-se ela logo)! Ai! os pecados que temos feito!»
Perguntámos agora o que havíamos de fazer. Pensávamos no nosso passado; tínhamos de desdizer tudo quanto ali havíamos propagado com todas as nossas forças, com escândalo do próximo e tanto desgosto das nossas famílias.
E os nossos pobres companheiros de heresia, que diriam quando soubessem? Éramos conhecidos como ferrenhos protestantes! E por quantos simples e ignorantes eu fora escutado e seguido para a heresia!
Por fim, fatigado, acabei por adormecer...

Principia aqui a segunda parte extraordinária da minha gloriosa conversão.

Sim, o primeiro curto sono dormi-o bem...
Mas, alta madrugada, acordei e levantei-me. Logo em seguida voltei a deitar-me e estava, portanto, completamente lúcido, quando senti com grande nitidez e intensidade o que vou tentar descrever: começava a aconchegar-me para, de novo, chamar o sono; de súbito, tive a esquisita impressão de que alguém, de mansinho, punha um pé no colchão, e a nítida sensação deste ceder, afundando-se de leve... como se subissem para a cama..
No mesmo instante, um arrepio gelado percorreu-me o corpo e os cabelos inteiriçados puseram-se-me em pé.
Ai de mim! Aterrado, logo o percebi!... Estava «aprisionado» outra vez, tal como em Fátima, sentindo-me completamente dominado e preso na mesma lançada asfixiante! Tentava aflito bater com os pés (que julgava livres) no fundo da cama. Não podia soltae o menor som através da garganta apertada por aquela «força» implacável. Fazia esforços desesperados para me livrar da «prisão» invisível que me sufocava. Mas tudo era em vão, porque eu não conseguia mover um só músculo, nem chamar!
De repente, fiquei livre! saiu-me então da gargantaa um brado medonho, que despertou a minha companheira. Assustadíssima, ela olhava para mim varada de espanto e interrogava-me aflita. Eu respondi-lhe assim:«Foi como em Fátima! O mesmo carrego, eu mal podia respirar»!
Estava lívido, trémulo e banhado num suor de agonia. Mal pude repousar uns minutos porque, quando a fadiga começavaa a prostrar-mee, voltei a suportar a «ofensiva» ainda uma outra vez!
Oh! que noite angustiosa! E na seguinte, também não escapei! Inexplicávelmente passei a terceira noite descansado. Porém, na quarta, estando ainda acordado e a conversar muito animado, dei, nitidamente e de súbito, pela «chegada»... Antes de ter tempo de formular um pensamento ou balbucilhar uma prece, eis que senti a leve pressão, o colchão ceder e logo o gélido arrepio. Os cabelos punham-se-me em pé e eu ouvia ranger a cama, que abanada toda com o tremos que me trespassava! «Preso» e »mudo» debatia-me aflitivamente e em grande sofrimento. Eram uns instantes de atroz agonia! Eu pensava que morria, e certamente assim teria acontecido, se aquilo durasse mais uns minutos!
No momento próprio, sempre à noite e estando já deitado, todo o meu ser, físico e espiritual, pressentia a «chegada» que, embora invisível, era perfeitamente sensível. Às vezes, mxia-me, agitava-me instintivamente e parecia afugentar... Mas logo sentia que voltava, surrateiramente, e então era «apanhado» num instante!
Quando ficava livre, saía-me da garganta aquele rouco e pavoroso brado, que nem parecia humano...
E todas as noites, até 11 de Julho seguinte,, travei aflitivamente o mesmo «combate»!
Eu e a minha companheira andávamos passados de temor e aflição. Não acabámovamos de sair do nosso espanto! Escondíamos de toda a gente o que acontecia, sem coragem para o contar a quem quer que fosse. Vivíamos enleados e confusos. Entretannto, os dias iam correndo... de forma que eu não me decidia a completar a obra da graça recebida em Fátima.
Submerso naquela confusão e perturbado, retraía-me e não caminhava para diante, covertendo-me de vez.
Noite após noite aconteceu o mesmo!
E eu ia ficando em ponto morto...
Por último, até já nem sentia medo ao aproximarem-se aqueles momentos aflitivos, como no princípio. Conformado e cansado, quando pressentia a «chegada», dizia apenas: «Aí vem...» E vinha, na verdade!
No entanto, não tínhamos paz. Eu sofria! Emagrecera muito, andava pálido e de rosto cadavérico . Quando a noite caía, para mim, era de verdadeiras trevas.
Quando padeci, Santo Deus!
Parecia que se escondera, sob nuvens sombrias e carregadas, aquele sol de liberdade e novas claridade que sobre mim brilhara em Fátima...

IV A «PEDRSA»....


certa manhã, porém, após uma noite tormentosa, quando eu sentia que já não aguentaria por muito tempo com vida, todas as noites, tal horror - veio-me uma grande vontade de agir!
Entour na minha alma, contorbada e tão doente, uma inesperada coragem e uma força invencível.
Levantando-me logo, resolvi, de súbito, ir contar tudo ao meu patrão.
Abençoada hora! Fixei bem aquela data - 29 de Junho!
Nas coisas Deus não há «acasos»...
Aquela manha não era uma qualquer...
Além de ser Domingo - o Dia do Senhor Ressuscitado - era a Festa de São Pedro!
A PEDRA sobre a qual Cristo fundou a Sua Igreja - Una Santa, Católica, Apostólica, Romana também chamada, porque em Roma se fixou a Sede de Pedro e seus sucessores, cabeça visível da Cristindade.
A Liturgia exalta nesse dia, especialmente, o Apóstolo -Chefe: Pois foi a Pedro que o Senhor Jesus entrgou as «Chaves do Seu Reino» e o Poder de «ligar e desligar» perpetuado nos seus Sucessores e na Igreja. Foi também a São Pedro - e só ele! - que Nosso Senhor confiou solenemente e por três razões todo o Seu Rebanho.
Assim o constituiu Pastor dos Pastores e dos Cordeiros, e nos seus Sucessores, até à consumação dos séculos.
Por S. Pedro - e só por ele! - rezou Cristo em pessoa, para o confirmar na Fé, e só a S. Pedro mandou que confirmasse os outros Apóstolos.
E quando?! Segundo as próprias palavras do Senhor, quando Satanás os quis «joieirar» como trigo (Luc.22, 31-32)
Era o dia da festa do primeiro Papa!...
Para um ex-protestante, tudo isto parece ter profundo e singulaer significado!...

Nesse dia, pos, «levantei-me» e comecei verdadeiramente a regressar a Casa de Nosso Pai, que há muito esperava o Filho pródigo.
Não há «acasos» para Deus, repito.
Nesse mesmo dia também me veio à memória, com vívia lembrança, o ferveroso pedido - estranho naquele momento! - que, com uma espécie de ansioso pressentimento do que depois aconteceu, eu fizera aos Pastorinhos: que me não deixassem descansar, enquanto eu não mudasse de vida e não voltasse ali por todo o próximo mês!
É que pesava sobre mimm muita coisa ruim e tão antiga! quem sabe se eu, passados os primeiros dias sobre os prodígios de Fátima, teria coragem de romper as fortes amarras que me prendiam ao passado? Teria eu correspondido à graça de libertação recebida de Nossa Senhora, se não fosse submetido ao aguilhão do sofrimento? Duvido de mim mesmo! Só Deus o sabe! Ora, aquela «prisão» foi transformada em «estímulo» e a derrota aparente tornou-se afinal uma vitória bendita!

Naquele Dia de São Pedro, levantando-me, pois, resolutamente, quebrei as peias que me enleavam. Fim um embrulho com a biblia protestante, os livros e folhetos de propaganda herética, e dirigi-me ansioso a casa do meu Patrão...
Mas, a prova não terminara ainda...
Soube, consternado, que ele estava para fora. Voltei tristemente sobre os meus passos. Retomei mais uma semana de trabalho... e de sombria luta. Quanto sofri!

Contudo, Deus seja louvado! - certamente pela graça recebida na festa de S. Pedro, preserverei na determinação que me veio nessa ocasião.

Por isso, voltei logo no Domingo seguinte. Recebido com muito carinho por ele e por sua Esposa, contei-lhes como pude e soube, resumidamente, a minha singular história. Expu-lhes a ânsia que tinha agora de mudar de vida o mais depressa possível e de coompltar a minha conversão!
Os meus patrões escutaram-me comovidos. Logo ali se resolveram a tratar de tudo e ajudaram-me, telefonando ao então Vice-Reitor do Seminário, Sr. Dr. Moreira Rocha, para que na Secretaria do Paço Episcopal fosse concedida, com toda a urgência, a dispensa de Banhos e a documentação necessária, a fim de partirmos para Fátima.
Regressei a casa mais aliviado...
À noite, porém, agora com menos intensidade, continuei a suportar a «ofensiva» teimosa.
Todas as noites!
Mas a hora do Poder das Trevas havia passado...
Eu iria firmar-me na Pedra (Pedro) e na «coluna e firmamento da verdade», que é a Igreja, como ensina São PAulo (1TIm,3,15).
chegou finalmente o dia da nossa total conversão - 13 de Julho de 1953.
Na véspera partimos com os nossos filhinhos para Fátima, onde j´+a nos esperavam os nossos bons patrões.
nessa mesma tarde tivemos uma longa e bondosa conversação com o sr. Padre João Cabeçadas, acerca do nosso passado e dos factos aqui relatados.
A ele fizemos a nossa confissão, no meio de grande confiança, sentindo a seguir consolador alívio. então, desceu sobre nós o Pedrão de Deus, pelos méritos do Sangue do Redentor. E ficámos finalmente em paz! Seja louvado Nosso Senhor Jesus Cristo!
à noite, já nos incorpoorámos, com as nossas velinhas acesas, na impressionante procissão das veças e participámos na fervorosa Vigília eucarística, reconciliados com Deus e a Sua Igreja.
E passei tranquilamente o resto da noite, a primeira sem luta há tantas semanas!
vencera a Rainha da Paz!

no dia 13 celebrou-se o nosso casamento com alegria e comungamos com alegria o verdadeiro Corpo e Sangue do Senhor. depois foram baptizados os nossos três filhos mais novos.
as nossas testemunhas no sacramento do matrimónio , e padrinhos das crianças no baptimos foram os srs. Fernando Moereira de Almeida e sua Esposa, e a Sra. D. Maria Teresa Nunes da Ponte.
Bem hajam de Desu por tudo!
A felicidade que então sentimos só poderão avaliar bem os nossos que já andaram perdidos e foram encontrados. a minha mulher e eu regressámos à verdade, à fé una da Santa Igreja Católica Apostólica Romana, em que nascemos e na qual já nasceram nossos pais e os pais dos nossos pais. que nossa Senhora nos guadre de nos alcance de nosso Senhor Jesus Cristo, Seu Filho, a Graça da Perseverança, pois lembro-me daquela Palavra em que o Salvador nos fala dos que depois de libertados do mal, voltam a cair nele e, então, «o último estado daquele homem torna-se pior que o primeiro» (S. Mat.12,43-45).
Há um só Deus, por isso também há um só Baptismo e uma só Fé verdadeira, afirma a Bíblia Sagrada e ensina firmeente a Igreja à vinte séculos. Só o orgulho, a ignorância e a cegueira espiritual podem impedir-nos de chegarmos a esta verdade tão simples.
Por isso, rogo aos que esta narrativa lerem que rezem por mim, para que eu persevere até ao fim.
Vou todos os anos a Fátima chorar de alegria e gratidão junto de nossa Mãe do Céu. Se me fosse possível, iria lá todos os meses! Talvez até lá ficasse para sempre... (Assim aconteceucom um convertido inglês, antigo teólogo e «pastor» protestante. Escreveu já vários livros sobre Fátima, entre os quais «Soou a hora»! foi traduzido para português.).
A minha alma ali renasceu de novo!
Quando posso, acompanho pela Rádio-Renascença, da qual, como católico, sou associado, todos os seus programas religiosos. As retransmissões de Fátima, nos dias 13 de MAio/Outubro, comovem-me profundamente.
Basta-me ouvir o Ave do início das transmissões da nossa Emissora Carólica, para que os meus olhos se humedeçam de saudade e ternura.

Em 1956 A Voz do Pastor (órgão da Diocese do Porto), a Voz da Fátima e a Rádio-Renascença referiram-se resumidamente à minha conversão.
Logo de vários lados surgiram dúvidas e negativas e foram pedidos nomes e pormenores. Então, maior se tornou a ânsia, que há muito trazia no peito, de dar testemunho - pormenorizado e testemunhado - de quanto se passou comigo.
Só agora, neste 40.º ano das Aparições de Nossa Senhora em Fátima, e por providencial desígnio, este intento se tornou realidade.
Ouso esperar que a Misericórdia divina se digne servir-se desta confissão sincera para ajudar a libertar outras almas.
Os dons de Deus devem ser manifestados para que todos O conheçam e assim Portugal seja fiel à Verdadeira Fé. Se nela preservarmos, praticando-a na nossa vida nacional e particular, seremos abençoados pelo Altíssimo. E a nossa Rainha e Padroeira continuará a proteger o extraordinário e total Renascimento de Portugal (Basta reflectir nestes três últimos decénios, pelas crises atravessadas pelos benefícios recebidos equivalentes a séculos.» Sua Santidade Pio XII, 13 de Maio 1946, na Coroação de Nossa Senhora de Fátima.) e guardará a nossa Paz: testemunhos do «Milagre de Fátima», que é a Esperança do Mundo moderno.
Ora os milagres são a divina assinatura da Verdade. O Sacerdote que em nome de Deus nos absolveu exultou de alegria, dizendo que esta conversão era deveras extraordinária, entre as muitas e tão grandes realizadas em Fátima.

LOUVOR, POIS, A NOSSA SENHORA DE FÁTIMA
RAINHA DAS GRANDES MARAVILHAS DE DEUS
AO QUAL SEJAM DADAS TODA A HONRA
E TODA A GLÓRIA PELOS SÉCULOS SEM FIM. AMEN.


Porto, Cidade da Virgem, dia das Santas Chagas, 13 de Fevereiro de 1957.

segunda-feira, 20 de Julho de 2009

Milagre em Fátima - Parte II

II – EM FÁTIMA – LIBERTAÇÃO – 12 e 13 de Junho de 1953

De entre os que, de boa ou má fé, saem da Santa Igreja Católica Apostólica Romana para se passsarem às heresias protestantes, só Deus e Nossa Senhora sabem porque fui chamado à graça sem par da conversão.
Tudo quanto eu posso afirmar é que a minha boa e saudosa mãe chorava e rezava por mim! Era uma mulher muito piedosa e foi fiel como uma verdadeira cristã. Eu tentei levá-la enganada ao «culto» da minha seita. Ela, porém, tendo percebido logo do que se tratava, repeliu sem remissão a heresia. Mas não abandonou a minha alma! Com fé, voltou-se então paea a oração persistente e confiante. No seu trabalho caseiro e pelos caminhos, rezava o «terço» continuamente. De certo, as suas lágrimas e orações subiram ao Céu, comovendo o Coração da Mãe das mães!
«O Espírito sopra aonde quer» e a graça de Deus é invencível. Assim foi dominado este encarniçado hereje pela bondade e poderosa intercessão de Nossa Senhora, alcançando-me de Seu Divino Filho a salvação e a paz.
E foi numa daquelas peregrinações que eu tanto amaldiçoava, organizada por almas generosas e cheias de fé, e que assim foram, de certo modo, recompensadas!
Continuando a minha história, chego ao ponto em que me encontrei empregado na Sociedade de Vinhos do Porto Constantino. Os meus patrões, Srs. Fernando Moreira de Almeida e Fernando Maria Guedes de Almeida, seu filho, são pessoas sinceramente religiosas.
Em Junho de 1953, resolveram levar todo o Pessoal, por conta da Casa, em peregrinação a Fátima, no dia 13. quanto a mim, aceitei a ideia radiante, tanto mais que «o passeio» (como eu lhe chamava a rir...) era de graça. E formei logo um plano: espalharia a minha propaganda herética no seio da própria peregrinação! Tencionava exercer nos meus companheiros toda a influência contrá´ria à Fé Católica que eu pudesse. Ao mesmo tempo, de tudo o que visse na Cova da Iria, esperava encontrar motivo para depois «pregar» contra Fátima. Estava seguro do êxito dos meus maus propósitos e, portanto, incorporar-me-ia muito satisfeito na peregrinação.
Ora, Deus escreve direito por linhas tortas!...
Como preparação, houve uns dias de pregações por um Religioso Franciscano.
Ouvi dizer, nessa ocasião, que «ninguém vai a Fátima com as mãos vazias». Mal imaginava eu, que zombava escarninho de tudo aquilo, que as havia trazer, de facto, cheiinhas a transbordar!...
Como é costume, partimos no dia 12. fomos percorrendo os lugares já consagrados, como Santa Maria de Alcobaça e Santa Maira da Vitória, «a Batalha». Estes dois templos grandiosos foram erguidos pela fé dos nossos Antepassados e são o assombro de todos quantos visitam. Aquelas pedras gloriosas exaltam os feitos patrióticos e a perseverante Fé Católica da Nação Portuguesa, sempre unida às maiores e mais pouras glórias. Porém, eu sentia-me desligado daFé e, portanto, da História da minha Pátria... e foi ali mesmo que, pelo contrário, eu senti mais ao vivo o meu fanatismo demoníaco e protestante, e assim o demonstrei. Olhava para o que me rodeava com desdém e raiva. E, na ânsia de amesquinhar todos aqueles belos e eloquentes testemunhos da nossa Fé secular, criticava tudo com acinte desprezo, escarnecendo de quanto ali representa a Santa Religião em que nasceu Portugal.
Ria-me e fazia rir os meus companheiros deprevenidos, ou sem convicções firmes. Outros, porém, aborrecidos com a minha atitude, afastavam-se ou ameaçavam queixar-se aos nossos chefes, o que, aliás por bondade, não fizeram.
Mas eu é que não podia calar!
Conformee, depois, íamos subindo a montanha bendita de Fátima e eu avistava os cruzeiros da Via-Sacra, enchia-me de tremenda fúria contra o sinal da cruz.
Na camioneta, sem me calar um momento, continuava asempre com a propaganda escarninha e demolidora. Tentava por todos os meios tirar aos meus companheiros a pouca ou muita fé com que eles se aproximavam do lugar abençoado da Visitação de Nossa Senhora a Portugal e ao Mundo!
Chegámos ao Santuário pelas vinte horas. As nossas camionetas pararam junto da Praceta de São José. Logo ali apareceu um rapzazinho a apregoar «velinhas». Então, no meio de muita galhofa, comprei uma, que havia de ficar memorável!...
Em seguida ao jantar, todos nos reunimos ao Sr. Fernando Moreira de Almeida e sua Ex.ma Esposa, a Sr.a D. Maria Leonor, amos Servitas de Nossa Senhora. M éramos mais de duzentas pessoas, com as nossas famílias. Eles aguardavam junto da Capelinha das Aparições para distribuirem gratuitamente as velas aos que as quisessem.
Entretanto, principiou a reza do «terço».
Eu continuava, agora em voz baixa, a zombar de tudo. O locutor do Santuário anunciou que se ia formar a procissão. Os carrilhões da Basílica guiavam o povo nos lindo cânticos de Fátima. Apareceram as primeiras luzinhas trémulas e, daí a pouco, era um mar de luz que alastrava!...
Eu estava convencido de que Fátima era uma mentira. Não podia sequer imaginar o que ali via gora com os meus olhos espantados! Fiquei furioso contra a multidão dos Fiéis. Tinha ânsias de desatar a descompor e a correr à pancada dali para fora toda aquela gente! A minha raiva crescia e subia como maré viva. Quando ouvi anunciar a saída do andor com a Imagem de Nossa Senhora de Fátima, comecei a tremer de violenta e mal contida ira.
De repnte, avistei-a! Julguei enlouquecer de ódio! É indiscritível o furor que então me assaltou. Pareia louco de raiva! Terríveis blasfemeas saíram da minha boca por entre os dentes cerrados. Fechei os punhos convulsos e encarei-a com verdadeiro e satênico ódio pessoal. De certo, já fui contido pelo poder divino e, só assim, não me atirei a ela para a desfazer com as mãos e os dentes, como diabólicamente me apeteceu!
O Inferno odeia Nossa Senhora! Para ele é a Inimiga desde o Princípio (Gen.3,15). Naquele lugar Ela é a vencedora, aclamada em todo o Mundo, desta grande Batalha de Deus, que é Fátima no nosso tempo apocalíptico! A Mulher bendita - «terrível como exército em ordem de batalha» - ali veiotrazer a Mensagem que, mais uma vez, congrega os Filhos de Deus para o Bom Combate, vivificando a Fé, renovando a Esperança e tudo abrasando na Caridade.
Outrora o Povo Escolhido devia ver nas imagens de ouro dos Querubins (mandadas colocar por Deus na Arca da Aliança) o símbolo da reverência devida à Glória do Altíssimo, manifestada do meio das asas estendidas (Ex.25, 18-22).
Certamente que, na branca imagem da Virgem Mãe do Messias – Arca da Nova Aliança – o Inimigo há-de ver o sinal da Presença, na Glória de Seu Filho, d’Aquela que, por Ele, lhe esmaga a cabeça.
E naquele terrível instante terá sido, então, pressentida a grande e próxima derrota que lhe ia ser infligida pelo poder misericordioso da Senhora, porque aqueles momentos foram realamente demoníacos e medonhos. Eu atingira a curva máxima do meu ódio!
Quando deles me lembro, ainda sofro!
Bendita seja Nossa Senhora que mos perdoou tão generosamente! Bendita seja!
Entretanto, obedecendo à voz do locutor, a procissão ia-se formando e nós começámos a caminhar todos juntos. Os meus companheiros trataram de acender as suas velas.
Com os nossos bons patrões à frente, seguíamos perto do andor. Era um espectáculo comovente! Mas eu, raivoso de despeito, não cessava de escarnecer e rir. Para evitar de dar nas vistas do meu chefe, resolvi divertir-me e acender também a minha luz, dizendo sempre mil graçolas blasfemas. Voltei-me, pois, para um dos meus coleas e acendi na dele a minha vela.
E começou aqui o prodígio:
No mesmo instante em que, depois de acesa, a endireitei, ela apagou-se de repente! Pedi a outro e tornei a acendê-la, risonho e irónico. Num ápice, voltou a apagar-se.
Comecei então a teimar muito divertido, terceira, quarta e quinta vez, mas já um tanto enervado... contudo, continuava a rir e a galhofar, dizendo que «se calhar eu fora burlado e a minha vela não era igual à dos outros1» Pois se, de cada vez que eu a acendia, via brilhar a chama muito viva, e em seguida extinguir-se, de súbito, misteriosamente! Era mesmo como se apagassem! Que significava aquilo?!
O tempo estava sereno e eu, olhando à minha volta e junto de mim, avistava ao longe e ao perto as velas acesas de toda aquela multidão, que brilhavam na noite como estrelinhas em prece. Ah! Mas eu não desisteria!
Querendo mostrar-me forte e seguro, apesar de as mãos me tremerem um pouco, ria-me e teimava sempre! Comecei assim a pedir lume a uma e outra das pessoas que passavam ao meu lado a cantar, comas as suas velinhas a brilhar.
Enquanto eu parava um instante para acender a minha luz – e ela se apagava de maneira tão insólita! – os meus companheiros já iam longe...
E eu sempre a acender a minha vela! E ela a apagar-se inexplicávelmente! Parecia que lhe sopravam!
Perdi a conta do número de vezes que a acendi e vi extinguir-se de forma tão extranha a chama viva! Despeitado e escarninho, teimei enquanto pude. Por fim, já não me ria... pois principiei a reparar, desconfiado e espantado, que afinal, aquilo só a mim acontecia!
Do fundo da minha consciência parecia querer subir um aviso silencioso...
Precisamente quando eu começava a sentir-me abalado, aconteceu o pior: todo o meu corpo foi como que «aprisionado», saudido por um estremeção e trespassado por frio de morte. Ao mesmo tempo, começou a correr-me da cabeça aos pés um copioso e gelado suor!
Assombrado e aterrado, deitei as mãos à cabeça: tinha os cabelos duros, inteiriçados e em pé! Perguntava a mim mesmo, transido de pasmo, o que seria aquilo?! Só então, no meio de grande perturbação, é que desisti de acender a minha vela.
Na maior ansiedade, procurei com um olhar aflito os meus companheiros, para me ajuntar a eles e buscar amparo. Avistei, lá longe, o andor branco da Senhora... Lembrei-me logo de que eles deviam ir ali pertinho d’Ela! Quis ir também!...
Mas foi então que experimentei o maior terror da minha vida: assim que este pensamento salvador despertou na minha mente, caiu sobre mim, bem em cima dos meus ombros, um «peso» insuportável! Eu queria ir... mas, conforme levantava um pé (ou tentava levantá-lo) para caminhar ao encontro de Nossa Senhora, o terrível «peso» era cada vez maior e, com incrível força, prendeu-me ao chão! Todo a tremer, banhado em suores frios, com a língua enrolada dentro da boca endurecida, sentia-me sucumbir debaixo daquele medonho «peso» e aprisionado num laço implacável. Ao mesmo tempo, todo o meu ser, físico e intelectual, era trespassado por uma indiscritível e pavorosa agonia!
Cheio de terror, quis gritar. Julguei mesmo que gritava a pedir socorro, mas ninguém me ouvia, nem via o que me estava a acontecer! Eu ficara ali, no meio de tanta gente, «aprisionado» e «mudo»!...alma prisioneira, para me libertar daquela «prisão»! o meu sofrimento era atroz! Nunca o esquecerei. Ainda ho
A procissão era um sereno rio de luz, na noite escura e branda. Os peregrinos, com velas acesas diante dos rostos felizes, passavam rezando e cantando, com os olhos postos na suave Imagem da Senhora das pombas brancas... Desviam-se pacientemente de mim e continuavam sempre em frente!
E eu a debater-me, ali, angustiado, a lutar desesperadamente na minha pobre alma prisioneira, para me libertar daquela «prisão»! o meu sofrimento era atroz! Nunca me esquecerei. Ainda hoje estremeço quando nele penso! Posso afirmar que sentia e ouvia ranger os meus ossos. Tais eram os esforços sobre-humanos que fazia para me mexer e livrar daquela terrível prisão. Mas uma «força» incrível chumbava-me ao chão! E tudo foi inútil!
Não pude alcançar Nossa Senhora no seu andor branco e florido!
Jamais encontrarei as palavras próprias para dar uma pálida ideia do que sofri e do meu terror naqueles momentos!
Contudo, e apesar disso, eu ainda blasfemava, , a! Essa era a minha ânsia. Fugir dali!
Mas como, se eu estava «preso» e esmagado debaixo daquele «carrego» insuportável? Raciocinava, mas não era senhor dos meus movimentos. Oh! Que pavorosos momentos.
Lá longe, voltada agora de frente para mim, Nossa Senhora regressava em triunfo e rodeada de veneração e amor, à sua humilde Capelinha...
E foi então que senti, de súbito, que uma força poderosa e incrível me fazia virar para a Basílica, impelindo-me para a frente! Conheci que podia, enfim, fugir «àquilo» que pesava como chumbo sobre os meus ombros! fugir,gora só em pensamento, porque não podia falar.
Debatendo-me naquela medonha aflição e esmagado sob o insólito «carrego», comecei por fim a lembrar-me vagamente de que aquilo tudo podia ser castigo...
Mas, então, é porque eu estava enganado e ali é que se encontrava a VERDADE!?
Teimosamente resisi a este salutar pensamento! Apeguei-me com desespero aos erros antigos e ao despreezo que aprendera a sentir no Protestantismo pela Mãe do Senhor!
E, no meio desta espantosa luta, esforçava-me em vão por fugir! Essa era a minha ânsia. Fugir dali!
Mas como, se eu esva «preso» e esmagado ddebaixo daquele «carrego» insuportável? Raciocinava, mas não era senhor dos meus movimentos. Oh! Que pavorosos momentos!
Lá longe, voltada agora de frente para mim, Nossa Senhora regressava em triunfo e rodeada de veneração e amor, à sua humilde Capelinha...
E foi então que senti, de súbito, que uma força poderosa e invencível me fazia virar para a Basílica, impelindo-me para a frente! Conheci que podia, enfim, fugir «àquilo» que pesava como chumbo sobre os meus ombros! Fugir, alcançar um refúgio, libertar-me! Comecei a andar...
Tomando de grande aflição, vi-me a atravessar o Santuário... mas, conforme me aproximava da Basílica – ia para lá como que conduzido, sem pensar nem querer! – o meu andar tornava-se mais fácil...
Ao chegar à escadaria já a pude subir quase a correr. Meti como uma seta pela Basílica dentro, sempre a direito, como levado por vigoroso e irresistível impulso, e szó parei diante do Altar-mor, do lado do túmulo do Francisco, onde caí, enfim, de joelhos! Ali fiquei longos minutos, todo trémulo, com olhar vago, sem saber onde estava.
Poré, aquele horrível «peso» e aquela estranha «prisão» mostravam agora uma espécie de fraqueza... soltava-se-me a língua e eu balbuciei algumas palavras enquanto começava a ter consciência de tudo o que me rodeava e do que via...
E foi então que os meus pobres olhos dilatados de angústia... depararam com a bendita imagem da Senhora, ao lado do Altar. Súbitamente lúcido, fitei-A assombrado... e, (não me atrevo a afirmá-lo!) pareceu-me que a via sorrir-se para mim! E esse instante fiquei livre e completamente mudado.
Sim, foi nesse minuto de graça que eu senti a alma liberta do véu espesso do erro e o corpo daquela «prisão» maligna. Num relance dera-se o prodígio... apesar do meu ódio protestante contra as santas imaggens! A lição é digna de ser meditada...
A tremer, comovido, eu não tirava o olhar deslumbrado dAquele «Sinal» da misericórdia divina, sentindo que nascia de novo. Agora, o meu coração era manso e humilde, e eis que a orgulhosa cerviz do hereje se abatera diante d’Aquela que tanto desprezara e que todas as gerações aclamarão Bem-aventurada, pois o Omnipotente obrou n’Ela grandes maravilhas (c.1,48,49)

segunda-feira, 13 de Julho de 2009

MILAGROSA CONVERSÃO EM FÁTIMA

S.C.J.

Introdução

Na segunda-deira passada fui visitar o meu antigo pároco, o Sr. Pe. José. Nessa ocasião, ele encontrava-se um pouco triste porque a irmã, que ao longo destes últimos 54 anos de sacerdócio o seguira para todo o lado e foram sua companheira, falecera vítima de doença prolongada. Andava então a juntar as coisas da irmã para deitar fora o que não seria mais útil e dar aquilo que ainda poderia ter alguma serventia.
Num dos baús, encontrou um livro que ele já não via á anos e que muito procurara. Qaundo já me vinha embora, ele chamou-me, foi ao quarto e disse-me: «Luís vou emprestar-te este livrinho e depois devolve-mo quando acabares de ler. Já ouviste falar em António de Sá? É sobre a sua conversão. Sabes que durante a procissão de velas ele acendia a vela e ela apagava-se?».
Ora esta conversa intrigou-me muito e hoje, Domingo, quando cheguei a casa, depois de ter ido dá uma volta, peguei nele e decidi lê-lo. Fiquei extremamente maravilhado com a história e prometi a mim mesmo colocá-la integralmente nos meus blogues na internet para comentário e para que todos fiquem a conhecer este homem do Alto Douro Vinhateiro e o seu grande testemunho.
Espero que todos os que lerem esta história gostem dela e a tenham como verdadeira e a divulguem. Que ela toque o coração de todos e que por ela muitos se convertam ou se deixem tocar pela Santíssima Mãe de Deus.

«A Milagrosa Conversão em Fátima de António de Sá
(Narrativa com a colaboração de M.A.) – Edições do Santuário – Leiria

Imprimatur – Leiren, 13 de Aprilis 1957
 José, Bispo de Leiria

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Esta pequena hitória verídica segue fielmente a narração [d]as palavras do próprio convertido. Quem escreveu cingiu-lhe o mais que pôde, sem lhe importarem primores literários ou de linguagem, que desfugurassem a sua manifesta sinceridade.
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Prefácio

Um conversão é um milagre da omnipotente Mesiricórdia de Deus, realizado, quase sempre, só no íntimo dos corações.
A minha conversão, porém, foi revestida de certos sinais exteriores, que o tornam de algum modo especial...
Devo-a à omnipotância suplicante de Nossa Senhora, Rainha do Rosário de Fátima.
Outrora, o meu coração foi arrastado pela dureza da impiedade e pelos erros de heresias malsãs. E assim A odiei e desprezei. Para muitos, isto parecerá coisa impossível a um cristão e português! Esses... guardem e defendam bem a sua Fé, e dêem muitas graças a Deus! Porque semelhante contradição é possível, desgaçadamente.
Aqui fica o meu testemunho doloroso, mas completo. Tudo quanto peço a Deus é que ele sirva para edificar os fiéis e esclarecer os enganados. Rogo especialmente por aqueles que eu próprio desviei da Verdade, arrastando-os comigo para os errados caminhos da separação e da divisão.

I – O PASSADO...

Chamo-me António de Sá e nasci a 29 de Maio de 1914 em Vilajusã, de Mesão Frio (Douro). [Actualmente Diocese e Distrito de Vila Real]
Meus pais, António e Margarida de Sá, hoje ambos falecidos, eram sinceramente religiosos, assim como a nossa família.
Aos nove anos e meio de idade fui trabalhar. O meu patrão era «maçon» confesso e declarado, como tantos outros, naquela época em que a Maçonaria chegara ao auge do seu temeroso poder na nossa Pátria. Segura da sua força, ela perseguia e tentava extinguir a Religião Católica entre nós e, para tanto, exercia sobre o povo a mais nefasta e profunda influência.
O meu patrão não perdia ocasião de transmitir aos seus empregados as suas ideias. Muito expecialmente atacava e negava tudo o que se referia à Igreja, da qual a seita maçónica é figadal inimiga.
Como é sabido, havia-se prometido e profetizado que, em duas gerações, o Catolicismo seria extinto no nosso País. Todos os esforços e violências foram realmente postos em prática com esse intuito.
Naquele tempo, em Portugal, eram públicos e notórios os crimes e malefícios que a Maçonaria praticava e espalhava.
Eu ouvia falar da sua acção e da sua força. Conhecia a história de um tio meu, Domingos de Sá, tambémcategorizado «maçon», muito conhecido em todo o concelho de Mesão Frio. Eram de arrepiar as terríveis blasfêmias que ele dia contra Deus, a SS.ma Virgem, a Santa Igreja e os Sacerdotes. este meu tio gabava-se, a quem o ouvia, de dever a sua fortuna ao poder do demónio e da maçonaria. com tudo isto, e sob estas tristes influências, cedo perdi a Fé, vindo a ganhar total aversão à Igreja. Odiava os Padres e fugia a todas as práticas religiosas. mas, afinal, estes tristes sentimentos estavam, então, bastante generalizados...
Ao mesmo tempo, fui tomado por uma grande ambição de riqueza, mesmo à custa da minha alma, se preciso fosse, tal como se contava do meu tio e de outros «maçons».
Quando, aos doze anos, fiz a Comunhão Solene, sómente devido aà fé e vontade de meus pais, já lhes causei um grande desgosto. Negava-me a juntar-me aos meus companheiros e a participar da alegria se, igual do mais lindo dia da nossa infância.
Desde aí, não voltei a entrar numa igreja nem tornei a rezar. Aumentou cada vez mais a minha aversão à Santa Igreja, aos sacerdotes e a tudo o que fosse religioso.
Quando, na Visita Pascal, o «Compasso» entrava na nossa casa enchendo a todos de satisfação, saía eu por outra porta, ou fechava-me num quarto a blasfemar, com o coração turvo de rancor e desprezo. Os meus queridos pais e a minha família sofriam com o meu procedimento, e eu escandalizava toda aquela boa gente.
Ouvia ainda contar casos de «pactos» com o Diabo, de sessões secretas a que ele presidia e outras histórias deste jaez. Na minha ânsia de enriquecer, novo e inexperiente como era – teria enão quinze ou dezaseis anos – ia, madrugada alta, pelos cerrados pinhais de São Martinho, chamando e invocando o maligno. Queria que ele me aparecesse para lhe entregar a minha alma em troca de riqueza e de poder!
Continuei nesta vida até aos vinte anos. Depois em 1934, vim para o Porto trabalhar, indo morar para Valbom.
Entretanto, em 1917, dera-se o Milagre de Fátima, e, com a vinda de Nossa Senhora, tudo se ia modificando na nossa terra.
De 1926 em diante, com a Revolução Nacional de 28 de Maio, a maçonaria fora banida e a sua maléfica influência começava a ser combatida eficazmente.
Porém, toda a Nação sofrera por muito tempo o seu nefasto influxo. A má semente frutificava...
Quanto a mim, a terra da minha alma estava preparada para o que se iria seguir...
Um dia, ao passar no lugar da Arroteia, ouvi uns cânticos que saíam duma casa aberta, a quem passava. Aquilo chamou-me a atenção. E perguntei... quando soube que eram «os protestantes» tirei, cá para mim, a conclusão de que se tratava de qualquer coisa contra a Igreja. Resolvi logo entrar! Julgava que fosse a maçonaria, que eu não esquecera e tanto desejava conhecer. Mas, agora, já não me era fácil encontrá-la, pelo menos às claras, como no tempo da minha infância.
Entrei, muito contente por ter ocasião de satisfazer a minha aversão à Religião Católica e realizar enfim os meus sonhos ambiciosos. Vieram logo ao meu encontro, sorrindo amávelmente, e ofereceram-me um livrinho para eu cantar também.
Por ignorância e curiosidade, alguns de entre nós são assim solicitados. Depois são levados para a heresia, através das várias pequenas seitas, que se esforçam por separar (e dividir) os Portugueses da verdadeira Fé. Muitos, mais tarde, cansam-se... e abandonam o «culto» protestante. Fica-lhes apenas... o cego preconceito que ali receberam contra a verdadeira Igreja.
Comecei, pois, a ler algumas linhas do tal livrinho que, aliás, me desiludiram, por me parecer que não se tratava afinal de maçonaria. Mas... fui ficando. Queria ver o que dali saia e se poderia tirar algum lucro material. E também fiquei porque logo lá encontrei a mesma aversão à Igreja, tal como eu a sentia e recebera da influência maçónica...
Durante o tempo que morei em Valbom, frequentei aquele «culto» protestante, cujo nome esqueci.
Estava ainda longe da Hora de Deus e eu tinha um longo e torto caminho a percorrer!...
Tempos depois, mudei-me para Avintes. Ali ouvi falar de outro «culto» diferente e das «ajudas» que dava aos seus adeptos. Logo me interessou...
Já não era a mesma «fé»... errava , portanto variava! Tratava-se agora dos Adventistas-Sabadistas, que são várias seitas. Estes eram os do 7.º Dia. Chamam-se assim, porque esperam para breve o Fim do Mundo e guardam o sábado como os Judeus, e não o Domingo – Dia da Ressurreição de Cristo, como guarda a Sua Igreja desde o primeiro século cristão.
Tanto na doutrina como nos «cultos» há muitas diferenças entre as seitas protestantes e grande rivalidade. Algumas das mais recentes – como os Adventistas, Pentecostais, Testemunhas de Jeová, etc. – são até chamadas «extravagantes» pelas seitas que apareceram anteriormente, a seguir à Revolta Protestante no século XVI.
Cada uma, porém, diz que é a verdadeira Igreja e que as outras são falsas ou estão em erro...
Por vezes, como pude testemunhar, chegam a discutir umas com as outras. E é vê-las, então, com as «suas bíblias em punho, provar cada qual a sua verdade e os erros das colegas, sobre pontos fundamentais da Fé.
Nestas ocasiões eu sentia-me bastante perplexo e pensava:«Estes afirmam uma coisa, mas aqueles já dizem o contrário...» Infelizmente, tratava logo de afugentar estes pensamentos. E, afinal, eram essas as únicas vezes em que eu vislumbrava a verdade e era esperto! Mas o demónio cega-nos...
Só num ponto estão todas de acordo: dizem que a Igreja Católica é falsa, apesar de ser precisamente a única que Cristo – Jesus, Nosso Redentor, fundou, e portanto, ser logicamente a Sua única e verdadeira Igreja, como Ele próprio lhe chamou: «A minha Igreja!».
Porque a verdade é que todas as seitas – desde o princípio do Cristianismo até agora – foram fundadas por simples criaturas humana que ou saíram (como foi predito!) da Igreja, ou duma seita para fundar outra seita.
Porém, pela Palavra de Deus – que é fiel! – ficou-nos a Sua Promessa de que «as Portas do Inferno não prevelacerão contra Ela».
Por isso, com o joio dos pecadores e o trigo dos justos à mistura, a Igreja Católica permanecerá a mesma até ao Juizo Final. A sua caridade não apaga a torcida que fumega... cada um dará justas contas na sua hora derradeira. O Senhor da Messe os separará e arrecadará o trigo no Seu celeiro e queimará a palha num «fogo inextinguível».
Mas, entretanto, Cristo ficará connosco e entre nós até à consumação dos séculos, porque o prometeu, e a Sua Palavra não passará.
Já assim procedeu o Senhor para com o Povo Escolhido: Com os seus justos e pecadores – dos Chefes ao mais humilde – fiel ou infiel, coberto de bênçãos ou esmagado sob castigo, foi sempre ele, e só ele o Povo da Promessa, até esta se cumprir com a vinda do Messias: Deus é fiel e verdadeiro!
Assim, também o Rebanho de Cristo, por Ele entregue a Pedro, permanecerá o mesmo até ao Fim.
O Bom Pastor conhece as suas ovelhas e separa os cabritos dos cordeiros...
Porque se arrogam, então, certos homens (e até mulheres) o direito de «reformar» e mudar a Obra de Deus, fundando outras «Igrejas», dividindo e suscitando divisões – negando assim a fidelidade da Palavra de Deus e dividindo Cristo?!
Este é o grande escândalo dado aos gentios pelos cristãos cismáticos e heréticos, sepradados da verdadeira Igreja. E «ai dos escandalosos»!
Não! Ainda não seria ali que eu havia de encontrar o que, sem o saber, há muito procurava.
No entanto, frequentei aquele «culto» durante seis anos. Mais tarde, surgiram nas mesma rua 5 de Outubro os chamados «Pentecostais». Por idênticos motivos passei a frequêntá-los, notando as diferenças de doutirna apesar de tudo. Mas, fiquei... e obriguei a minha companheira a ir comigo. Valha a verdade que ela a princípio não queria, e só foi com grande retulância.
Com o rodar do tempo, fui-me tornando «um bom elemento», assim o diziam o nosso «ministro» e os meus confrades.
Mais adiante, lá nos «casámos», e também fomos baptizados... como se o não tivéssemos sido já em pequenos!. Confesso que não esqueci aquela cerimónia... é que certas seitas protestantes julgam que o Baptismo, para ser válido, tem de consistir num mergulho total no rio ou num tanque especial. E assim nos fizeram a nós. Mas a água estava amornada...
Como lá era ponto de fé que não se pode usar ouro, a minha companheira deu os seus brincos para sustentação da seita.
A tudo nos sujeitámos... e às vezes tanto se recalcitra contra as verdadeiras «obras de Deus»!
Fui-me enfronhando de cada vez mais na heresia. Em dada altura, devido ao meu «fervor» e a uma singular facilidade de falar, comecei a ser mandado a fazer «pregações». Mas, na verdade, que estudos sérios e indispensáveis tinha eu da Sagrada Escritura e de tudo o mais que é necessário saber para ensinar e pregar sobre estes assuntos tão importantes e elevados? Pois, apesar disso, «preguei» por toda a parte! Bastava-me a minha própria inspiração...
E assim, sobre um ou mais versículos da Bíblia, «ensinava» eu no meio do povo, que me escutava ávido e crédulo. E por aqui se vê a credulidade, fácil de contentar... dos que aceitam ou buscam «doutrinas» fora da verdadeira Doutrina ensinada pela Igreja de Deus!
Preguei, pois, em Rio Tinto, Valbom, Carvalhal, Redondo, Carvalhido (Porto), Espinho, Mesão Frio e Avintes, onde sou bastante conhecido. Arengava ainda nos combóios, nas camionetas, nos «eléctricos» e em toda a parte onde a ocasião propícia.
Além disso, vendia e espalhava livros e folhetos, como propagandista fanático que era.
E falava, falava, falava!...

Depos da minha extraordinária conversão, nada encontro na minha excelente memória que «preguei».
Parece que de mim fugiu um demónio palrador e furioso, que me fazia despejar aqueles borbulhões de palavras!...
Porque eu afrontava e desafiava toda a gente! Até os sacerdotes, nas frequesias onde ia semear a minha cizânia e onde quer que os encontrasse a jeito.
Eu tinha pela cruz especial repulsa. Sempre que a via blasfemava com desprezo contra o sinal da nossa Redenção! É inconcebível? Mas, na heresia é assim!.
Cheguei a «dar culto público» na minha casa de Avintes, no Padrão, aonde acorria muita gente para me ouvir. Porém os meus chefes proibiram-me de «falar» assim, porque diziam, só o «culto» que eles promoviam devia funcionar. Por causa disto tomei certa atitude rebelde entre os «Pentecostais» e até fui lá castigado para me submeter.
Por pouco não nasceu ali também mais uma das tais «igrejas protestantes»... Afinal, era o mesmo direito de «livre exame» e de «inspiração». Todas as seitas nascem mais ou menos assim...

E sempre insatisfeito, agitado e agitando à minha volta, ainda experimentei novas seitas, passando por último a frequentar o Torne, em Vila Nova de Gaia.
Entretanto, uma coisa se enraizou profundamente na minha alma, mmais ainda do que os próprios erros da heresia: o cego preconceito, feito de calúnias e absurdos, que o Protestantismo professa e ensina contra a Igreja.
Por isso eu detestava-a, e a tudo quanto lhe diz respeito, com aquele característico e amargo zelo protestante.
Destaca-se neste «zelo» o desprezo e até raiva contra a Mãe de Deus.
Ah! Este é um dos aspectos mais tristes, incompreensíveis e de arrepiar das heresias protestantes, em geral.
Quando um católico renega a sua Fé e vai para o protestantismo, a si mesmo se torna órfão desta Mãe misericordiosa, pois ele a matará no seu coração atrofiado...
Os próprios Mouro ou Maometanos, que veneram, de certa maneira, «a M
Ãe de Jesus», são, neste ponto, superiores à maioria dos Protestantes, apesar de não serem adeptos de Cristo!
Assim eu, cego pela heresia, detestava «a Mãe do meu Senhor» (Lc.1,43). Especialmente quando ouvia falar nas suas aparições na Cova da Iria, ou dos milagres e maravilhas de Fátima!
Ah! Então, era ódio vivo e verdadeiro aquele fogo que se acendia na minha alma. Começava a lançar pela boca fora uma torrente de injúrias e blasfêmias. Ao ver passar para Fátima as peregrinações com o povo feliz a rezar e a cantar , eram um nunca acabar de imprecações contra Nossa Senhora e contra Fátima.
Pois havia de ser precisamente o Coração Doloroso e Imaculado de Maira, nossa Mãe bendita, que, misericordiosamente, me havia de levar à salvação.

(cont...)